A falta que eu não faço

Crônica sobre elevador


Aline tinha uma regra: não levar o celular para almoçar. Simples assim! Durante o horário de almoço, ela se permitia degustar a refeição sem ser interrompida por mensagens ou ligações. Levantava-se da sua mesa, batia o cartão de ponto e seguia rumo ao elevador do edifício onde trabalhava. 

No restaurante, fazia a refeição em paz, enquanto tentava digerir os estresses do escritório. Quase que, diariamente, seguia a mesma rotina: almoço, zero celular e a volta ao trabalho via elevador. 

Mas, numa quinta-feira quente de fevereiro as coisas foram diferentes! Após a refeição, de volta para o trabalho, o elevador parou! Pane geral! Luzes apagadas, circulação de ar restrita e o botão de chamada de emergência não funcionava.

_Que maravilha! O botão não funciona, meu celular não está aqui e esse calor insuportável_resmungou como se alguém a ouvisse.

Decidiu esperar, logo alguém notaria o problema lá fora. Cinco, dez, quinze, vinte minutos depois e nada de alguma reação humana do lado externo! Resolveu gritar:

_Socoooooorro! Estou presa no elevador, alguém me ajude!_a cada grito, Aline sentia-se mais ridícula.

Longos vinte minutos depois do primeiro pedido, alguém grita do lado de fora:
_Calma! Já chamamos o técnico, ele deve chegar em 15 minutos.

Nessa altura do campeonato, Aline já havia sentado no chão, enquanto o suor escorria pelo rosto. Tentou ser prática e agradeceu pelo fato de que claustrofobia não era um dos seus problemas. 

E enquanto aqueles longos 15 minutos não passavam, começou a pensar na vida e fazer um jogo solitário de perguntas e respostas. 

_ Ah! Se eu tivesse ficado presa no elevador com o Cauã Reymond! Três horas seriam suficientes para rolar um clima entre nós. Mas, e se eu morrer nesse elevador? Quantos dias de luto esse escritório faria? Aposto que mal mandariam coroa de flores. Pouco me importa! Vou tirar essa camisa e ficar só com a camiseta mesmo. Calor insuportável! Ah, meu Deus! Tinha pedido para o gerente do banco me ligar às 13 horas para falarmos a respeito dos investimentos. O prazo era hoje! Saco! Se esse elevador não for consertado rápido, vai atrasar o meu dia todo. Tenho que emitir as notas fiscais antes das 15 horas. Droga! E agora?! Agora nada, meu amor, é permanecer sentada e esperando. Quem sabe, o Cauã aparece por aqui...

Minutos depois, a voz lá de fora anunciou:
_Aline, calma! O técnico está preso em um engarrafamento na Avenida Central, aconteceu um acidente e a cidade está parada. Vai demorar mais um pouco! Você está bem?

_Estouuuuuu!_respondeu com raiva.

Lembrou-se, enfim, do que tinha lido a respeito de meditação e resolveu praticar, finalmente, a técnica que ela acreditava ser benéfica, mas que dizia nunca ter tempo para fazer! Contou até dez e iniciou  o processo de inspirar e expirar o ar dos pulmões, inspirar e expirar... Acalmou-se! E de repente ouviu um silêncio. As pessoas lá fora pareciam ter se calado. Sentiu-se esquecida, tentou se esquecer.

_Não faz diferença!_pensou mais calma._Ficarei nesse elevador enquanto não encontrarem a solução. O mundo lá fora continua sem mim, inclusive e infelizmente, o próprio Cauã! 

E relaxou até adormecer! Sonhou que estava descalça caminhando sobre um rio de águas rasas e frias. E quanto mais caminhava, mais longo o rio parecia ser. Mas, não importava. Sentia-se tão calma, caminhar era apenas o seu objetivo, o tamanho do rio não era responsabilidade sua! Decidiu então, sentar-se em uma pedra bem embaixo de um galho que oferecia uma sombra agradável. Logo volto a caminhar, pensou. Mas, de repente, a voz do Cauã Reymond gritou do alto das árvores:

_Moça, moça! Você está bem?

E Aline acordou. O técnico - que não se parecia com o Cauã - abriu a porta, e atrás dele, uma meia dúzia de curiosos. 

Ainda sonolenta, respondeu que sim. Vestiu a camisa, enxugou o suor frio do rosto e saiu. Agradeceu a ajuda que veio duas longas horas depois já que o elevador havia ficado preso entre dois andares. Eram 15 horas e 15 minutos de uma quinta-feira quente de fevereiro. A boca amarga de quem acabou de acordar e a sensação indolente: "Nada ruiu sem mim!". As ligações foram feitas, os prazos acordados e os não cumpridos foram negociados, enquanto ela esperava inerte no elevador. 

_Nada é tão sério quanto parece!_sussurrou para si enquanto ligava para o centro de yoga e meditação. Em seguida, escreveu numa folha avulsa, quatro resoluções que foram afixadas na mesa do escritório:

1. Contar até dez em qualquer situação;
2. Lembrar que não sou insubstituível;
3. Ter a certeza de que tudo passa;
4. E parar de seguir o Cauã Reymond no Instagram.


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