A flor e o vento





Ele a seguia entre os becos, a observando pelas frestas e sentindo o seu perfume! Não era mais momento de dizer: “Olá!” ou “Volta!”. Tudo parecia ter ficado mais cômodo com a distância: ela não tinha mais tantos defeitos e nem a voz dela o irritava mais. Era bela porque estava como antes, um antes perdido!

É claro que havia os dias em que ele tentava fechar os olhos e ignorar. Eram os dias de saudade, e nesses momentos, tudo doía tanto, que era mais fácil fingir! Disfarçar que ele não percebia a estrada dela ficando cada vez mais distante e que havia uma escolha: a decisão de não agir e de não estar por perto!  Por isso, os dias de sol batendo na janela, os de chuva miúda em bares e as noites de ligações inequívocas pareciam cenas sonâmbulas.

Assim como ilusórias eram as pétalas espalhadas pelo quarto de um amor que estava indo embora aos poucos. A primeira vez que as viu, jogou-as debaixo da cama, na segunda, pisou... Na terceira, ignorou! Teve a impressão que o retrato, antes colorido, havia amarelado. Na caixa de cartas, uma poeira pousara e ficou ali tão escura e densa que parecia ter se transformado em um cadeado.

Aos poucos, ele não mais percebia. Parou de seguir, de saber ou de entender... Deixou o vento levar o perfume dela, a traça roer as cartas e a vida ficar sem graça! Enquanto ela ainda passava pelos mesmos becos e entrecortava as mesmas ruas na esperança de vê-lo escondido a observá-la de algum lugar.

0 Comentários

Gostou do texto? Deixe sua opinião: