E por falar em Papai Noel



Rodrigo era o tipo boa praça: sempre bem relacionado e capaz de circular nos mais diferentes meios abordando diferentes assuntos. Além de sociável, era um exímio funcionário: cumpria suas obrigações com louvor, fazia horas extras sempre que necessário e saía mais cedo sem fazer alardes.

Gostava de ser o tipo social: organizava as reuniões, os aniversários, as festinhas. Era Relações Públicas (RP) por vocação e sempre que as datas tradicionais se aproximavam era convocado. Na Páscoa, os chocolates e o coelhinho. No Natal, óbvio: além de todos os pormenores, o Papai Noel. E aquele ano não seria diferente! Mas, havia um problema.

Onde raios, Rodrigo conseguiria um sujeito bonachão para ser o bom velhinho? Nos últimos anos só tinha conseguido magrelos ou mal-humorados que tratavam os pequenos com impaciência. Os colegas de trabalho já estavam reclamando.

Pela sua cabeça passaram mil tipos, até o dono do boteco, um anãozinho engraçado. Mas, logo pensou: “As crianças desconfiariam!”. Perdido em sua dúvida cruel, eis que liga o Paulão: um amigo gorducho e divertido. Bingo! Seria ele.

Não foi difícil convencê-lo. Rodrigo ajeitaria a roupa e compraria os doces. Paulão só teria que colocar uns moleques no colo e fazer "hou hou hou".

O bendito dia chegou. O salão lotado, os funcionários e seus filhos ansiosos pelo Papai Noel, que aquele ano, Rodrigo prometeu ser o mais legítimo de todos. Enquanto o salão fervia, em um bar não tão distante, Paulão Papai Noel e Rodrigo RP bebiam umas cervejinhas antes de chegar à festa.

Verdade seja dita, a dupla gostava bem mais de cervejinhas do que de festas corporativas e crianças barulhentas. Tal qual, beberam mais do que deviam, e Rodrigo já atrasado percebeu que seu emprego poderia estar ameaçado. Chamou o amigo, naquela hora já bêbado, e o levou à festa.

Quando Paulão Papai Noel bêbado entrou, a meninada enlouqueceu. Ele com as bochechas rosa devido à embriaguez e meio cambaleante, convenceu até quem já não acreditava mais em bons velhinhos.

A meninada, apertando o Noel, começou a gritar:
_Agora comigo!
_Eu, eu, Papai Noel!
_Quero uma bicicleta!
_Quero uma Barbie!
_Papai Noel, onde você mora?

E puxa barba e cai bigode. Papai Noel Paulão já nervoso pedia ao Rodrigo mais uma cerveja para aguentar a pimpolhada. Rodrigo lá no fundo negava, pressentindo que Papai Noel e copo de cerveja não combinariam!

Foi então que, Papai Noel Paulão bêbado, para se safar da situação lembrou-se das balas e pirulitos. Ligeiramente, enfiou a mão na sacola e começou a jogar os doces. O problema foi que as balas começaram a atingir as crianças como armas, tal era a força que Paulão jogava os doces.

Um moleque saiu chorando porque o pirulito riscou o rosto dele e outro ficou com um calinho na testa devido a uma bala arremessada. Aos poucos, as crianças foram se afastando. Papai Noel parecia armado com uma metralhadora de guloseimas.

Quando a munição acabou, Rodrigo se aproximou e disse:
_Vamos embora que já tem pai querendo chamar a Polícia pra nós!

À francesa deixaram o salão. No dia 26, o chefe anunciou:
_Rodrigo, desculpe-me! Mas, ano que vem você está fora da comissão da festa. Que é isso?! Papai Noel bêbado e atirando bala em criança? Não vai dar!

Anos depois, um rapaz sentado no divã, desabafa:
_Minha esposa reclama que no Natal sempre fico triste e não participo das festas. Mas, não sei o motivo doutor, tenho verdadeiro pavor de Papai Noel!
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