Mineiros não dizem eu te amo






Mineiros não dizem eu te amo, fazem café fresquinho e assam pão de queijo! Para os nascidos nas 'Terras Gerais', palavras nem sempre expressam a verdade de um coração, mas quitanda e prosa boa são declarações de afeto genuíno.

E enquanto a chuva cai sobre o mundo lá fora e as dores apertam o peito aqui dentro, na casa do mineiro a fumaça do bule baila feito criança no teto da cozinha. No forno, os pãezinhos assam, dourando sem pressa a casquinha que ficará crocante. 

A avó busca o forro bordado à mão, guardado na velha caixa de madeira, e o coloca sobre a mesa. De repente, a xícara cor de âmbar é recheada até a beirada com o líquido preto. Café bom é escuro e adoçado com disciplina! Os pãezinhos de queijo, ainda quentes, são servidos no prato de ágata, ao lado do bolo de fubá, feito com generosidade. 

O barro lá fora não incomoda, os pardais encharcados também não! Na cozinha, entre cafés e quitandas, esticam-se as palavras no ritmo de um novelo de algodão na velha máquina de fiar, enquanto as mãos enrugadas passam e repassam os dedos sobre o forro, sentindo assim, as nervuras das linhas vermelhas dos bordados. 

Chama-se a Deus para os males que parecem não ter remédio, faz cara de espanto para as modernidades, reclama-se dos mandruvás que comeram as folhas das hortas. Rememora-se os mortos com uma pontinha de tristeza e muita saudade! 

Permanecem assim, dizendo eu te amo, silenciosamente. Eu te amo no bolo feito com capricho, no queijo guardado para fazer o seu pão, no forro da mesa guardado para horas especiais e no café coado na hora para encher a casa com o perfume da gratidão

Eu te amo no chá para gripe com folha de canela e açúcar, no uai dito para perguntas e respostas, no trem a que tudo se define... Nas palavras comidas pelas beiradas, mas sustentadas pelo olhar.

Mineiros não dizem eu te amo, porque amar é verbo de se benzer!

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Imagem: Pixabay

A falta que eu não faço

Crônica sobre elevador


Aline tinha uma regra: não levar o celular para almoçar. Simples assim! Durante o horário de almoço, ela se permitia degustar a refeição sem ser interrompida por mensagens ou ligações. Levantava-se da sua mesa, batia o cartão de ponto e seguia rumo ao elevador do edifício onde trabalhava. 

No restaurante, fazia a refeição em paz, enquanto tentava digerir os estresses do escritório. Quase que, diariamente, seguia a mesma rotina: almoço, zero celular e a volta ao trabalho via elevador. 

Mas, numa quinta-feira quente de fevereiro as coisas foram diferentes! Após a refeição, de volta para o trabalho, o elevador parou! Pane geral! Luzes apagadas, circulação de ar restrita e o botão de chamada de emergência não funcionava.

_Que maravilha! O botão não funciona, meu celular não está aqui e esse calor insuportável_resmungou como se alguém a ouvisse.

Decidiu esperar, logo alguém notaria o problema lá fora. Cinco, dez, quinze, vinte minutos depois e nada de alguma reação humana do lado externo! Resolveu gritar:

_Socoooooorro! Estou presa no elevador, alguém me ajude!_a cada grito, Aline sentia-se mais ridícula.

Longos vinte minutos depois do primeiro pedido, alguém grita do lado de fora:
_Calma! Já chamamos o técnico, ele deve chegar em 15 minutos.

Nessa altura do campeonato, Aline já havia sentado no chão, enquanto o suor escorria pelo rosto. Tentou ser prática e agradeceu pelo fato de que claustrofobia não era um dos seus problemas. 

E enquanto aqueles longos 15 minutos não passavam, começou a pensar na vida e fazer um jogo solitário de perguntas e respostas. 

_ Ah! Se eu tivesse ficado presa no elevador com o Cauã Reymond! Três horas seriam suficientes para rolar um clima entre nós. Mas, e se eu morrer nesse elevador? Quantos dias de luto esse escritório faria? Aposto que mal mandariam coroa de flores. Pouco me importa! Vou tirar essa camisa e ficar só com a camiseta mesmo. Calor insuportável! Ah, meu Deus! Tinha pedido para o gerente do banco me ligar às 13 horas para falarmos a respeito dos investimentos. O prazo era hoje! Saco! Se esse elevador não for consertado rápido, vai atrasar o meu dia todo. Tenho que emitir as notas fiscais antes das 15 horas. Droga! E agora?! Agora nada, meu amor, é permanecer sentada e esperando. Quem sabe, o Cauã aparece por aqui...

Minutos depois, a voz lá de fora anunciou:
_Aline, calma! O técnico está preso em um engarrafamento na Avenida Central, aconteceu um acidente e a cidade está parada. Vai demorar mais um pouco! Você está bem?

_Estouuuuuu!_respondeu com raiva.

Lembrou-se, enfim, do que tinha lido a respeito de meditação e resolveu praticar, finalmente, a técnica que ela acreditava ser benéfica, mas que dizia nunca ter tempo para fazer! Contou até dez e iniciou  o processo de inspirar e expirar o ar dos pulmões, inspirar e expirar... Acalmou-se! E de repente ouviu um silêncio. As pessoas lá fora pareciam ter se calado. Sentiu-se esquecida, tentou se esquecer.

_Não faz diferença!_pensou mais calma._Ficarei nesse elevador enquanto não encontrarem a solução. O mundo lá fora continua sem mim, inclusive e infelizmente, o próprio Cauã! 

E relaxou até adormecer! Sonhou que estava descalça caminhando sobre um rio de águas rasas e frias. E quanto mais caminhava, mais longo o rio parecia ser. Mas, não importava. Sentia-se tão calma, caminhar era apenas o seu objetivo, o tamanho do rio não era responsabilidade sua! Decidiu então, sentar-se em uma pedra bem embaixo de um galho que oferecia uma sombra agradável. Logo volto a caminhar, pensou. Mas, de repente, a voz do Cauã Reymond gritou do alto das árvores:

_Moça, moça! Você está bem?

E Aline acordou. O técnico - que não se parecia com o Cauã - abriu a porta, e atrás dele, uma meia dúzia de curiosos. 

Ainda sonolenta, respondeu que sim. Vestiu a camisa, enxugou o suor frio do rosto e saiu. Agradeceu a ajuda que veio duas longas horas depois já que o elevador havia ficado preso entre dois andares. Eram 15 horas e 15 minutos de uma quinta-feira quente de fevereiro. A boca amarga de quem acabou de acordar e a sensação indolente: "Nada ruiu sem mim!". As ligações foram feitas, os prazos acordados e os não cumpridos foram negociados, enquanto ela esperava inerte no elevador. 

_Nada é tão sério quanto parece!_sussurrou para si enquanto ligava para o centro de yoga e meditação. Em seguida, escreveu numa folha avulsa, quatro resoluções que foram afixadas na mesa do escritório:

1. Contar até dez em qualquer situação;
2. Lembrar que não sou insubstituível;
3. Ter a certeza de que tudo passa;
4. E parar de seguir o Cauã Reymond no Instagram.


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Eu não odeio segunda-feira




Lembro-me, de na infância, meu tio pegar um calendário e explicar para minha prima e eu que existiam os dias da semana. Foi uma informação reveladora! Eu não sei quantos poucos anos eu tinha, mas o episódio nunca mais saiu da minha cabeça, tamanha foi a surpresa! Domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado, passaram a existir na minha humilde vidinha!

Então era assim: a vida era fatiada em sete, e para cada uma dessas partes, certos hábitos sociais. É claro que naquele dia não fiz essa interpretação, simplesmente gostei dos nomes! Porém, anos depois entendi o que significavam, e desde então, não tive mais paz!

Não adiantava querer ir para escola no sábado porque ele parecia um dia ideal para aprender Português, as portas não se abririam para mim! Tampouco querer dormir até tarde na segunda-feira chuvosa porque meu chefe não iria gostar nem um pouco da minha desculpa, humanamente, comum! Não. Com o tempo entendi que no sábado as pessoas escutavam músicas alegres com som alto, e no domingo à tarde, sonambulavam diante da TV. Na terça-feira reclamavam da vida, na quinta faziam contagem regressiva pela sexta-feira! A vida parecia ser idiota o suficiente para ser dividida em sete! Era o fim.

Mas, como maturidade e terapia não fazem mal a ninguém, eu descobri o segredo! Vinte e tantos anos depois, eu percebi! Os nomes dos sete dias da semana foram feitos para nos enganar. Malditas convenções sociais! Ainda que existam as obrigações, eu poderia ir ao cinema na segunda e aproveitar os ingressos mais baratos e as filas menores; encontrar uma amiga querida no domingo à tarde; tomar uma taça de vinho em plena quarta-feira e não fazer, absolutamente nada, no sábado. Parei de reclamar dos nomes e decidi adicionar sabor à minha rotina! 

A vida, enfim, não estava dividida por sete, mas somada por mim. Além das obrigações necessárias, acrescentei pequenos prazeres ao meu dia a dia, diminuí as neuras e mandei embora as crenças inúteis! Não são mais sete, 30 ou 365, sou apenas eu e as boas escolhas que faço! 

Eu não odeio segunda-feira, pois decidi 'sabadar' os meus dias!

Imagem: Pixabay

O Menino que Descobriu o Vento: uma história inspiradora




Alguns títulos de filmes são verdadeiros convites, ainda mais quando vêm com a frase “baseado em uma história real”. Duas misturas que não resisto! Foi assim com “O Menino que Descobriu o Vento”. O longa produzido pela Netflix narra a história de um garoto do Malaui, país da África Oriental, que inspirado por um livro de Ciências, constrói uma turbina eólica para salvar seu vilarejo da fome.

O filme é estrelado pelo adolescente Maxwell Simba, que interpreta o personagem principal William Kamkwamba, além do veterano Chiwetel Ejiofor, rosto conhecido no Brasil, e a senegalesa Aïssa Maïga, e relata como a educação pode ser uma arma poderosa de transformação.

Em 2001, a região onde morava a família de William foi assolada pela seca, destruindo todas as plantações. O lugar que já era precário, sem acesso às informações ao redor do mundo e ao uso de tecnologias já consolidadas em outros países, passa a ter mais um grave problema: a fome. Ainda assim, o jovem, com talento nato e forte vontade de encontrar uma solução, consegue minimizar a dura realidade do lugar onde vive sua família e amigos.

“O Menino que Descobriu o Vento” é um daqueles filmes que mostra como os seres humanos que fazem a diferença no mundo encontram soluções em meio à adversidade.

A obra também é uma ótima dica para adolescentes já que mostra como a educação, pouco valorizada por alguns jovens, é considerada uma bênção de difícil acesso a outros.


William é interpretado pelo queniano Maxwell Simba – Photo by Ilze Kitshoff

Fique por dentro:

  • O filme é baseado no livro de memórias The Boy Who Harnessed The Wind, de William Kamkwamba e Bryan Mealer. A obra em português também com o título "O Menino que Descobriu o Vento" está disponível para venda nos sites da Saraiva, Estante Virtual e Amazon. Valores entre R$35,00 a R$49,90, sujeitos à variação.
  • Veja o vídeo do TED em que William Kamkwamba conta sua história. Confira aqui

Trailer O Menino que Descobriu o Vento:



Imagem 01 - Divulgação



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Augusto Malta e o Rio de Janeiro antigo


Biografia de Augusto Malta

Os registros feitos do Rio de Janeiro, no início do século 20, pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta são uma verdadeira viagem pelo túnel do tempo. Para quem conhece a capital fluminense, ou pelo menos, os pontos turísticos mais famosos, visualizar cada imagem feita por Malta traz um saudosismo de um tempo não vivido.




Nascido em 14 de maio de 1864 na cidade de Mata Grande no estado de Alagoas, Augusto Malta mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1888, aos 24 anos. Na cidade, o rapaz trabalhou inicialmente no comércio de tecidos, mas foi no interesse pela fotografia que estabeleceu sua carreira. Primeiro como amador e depois como fotógrafo oficial nomeado em 1903 pela Intendência do Distrito Federal do prefeito Pereira Passos. Cargo exercido até 1936, e que após a aposentadoria, também se tornou seu passatempo. Malta continuou a fazer registros, entre eles, dos foliões em carnavais guiados por antigos carros Ford, das personalidades da época e do surgimento das primeiras favelas.



Suas fotografias em preto e branco são uma verdadeira viagem ao passado, onde ainda vivem homens com seus inseparáveis chapéus, meninos de calças curtas e descalços, mulheres de vestidos longos e cabelos sempre presos, o bondinho do bairro Estácio, os cavalos pastando em um cenário ainda rural aos pés da Igreja da Penha, o Morro do Pavãozinho ainda desabitado, a Lagoa Rodrigo de Freitas despovoada, as orlas das praias quase desertas, o Hotel Copacabana Palace cercado por terrenos vazios e construções baixas e, até mesmo, a imagem de um dirigível sobrevoando o bairro da Glória que soa quase como uma pintura de Salvador Dalí. 



Cenas que mostram um Rio em processo de modernização e figuram como memória fotográfica de valor incontestável ao lado das obras do francês Jean-Baptiste Debret que pintou imagens da rotina de um Brasil ainda colônia no século XIX.

Onde conhecer – Parte do acervo das imagens de Augusto Malta, estimado em 80 mil fotografias, está atualmente no Museu da Imagem e do Som (MIS) no Rio. No espaço estão 25 mil fotografias, 20 álbuns fotográficos com imagens selecionadas pelo próprio Augusto Malta, 1.700 negativos de vidro e 115 negativos panorâmicos. A programação do espaço e como chegar ao local podem ser consultadas no site do Museu www.mis.rj.gov.br.

No Instagram - Mas, além dos registros passados, outro trabalho que também merece destaque é o do fotógrafo Marcello Cavalcanti que registrou como estão atualmente os mesmos lugares fotografados por Malta. Cavalcanti criou o projeto Augusto Malta Revival por meio de um trabalho de manipulação digital onde uniu passado e presente em imagens que fazem uma interessante releitura do passar de um século. Algumas destas imagens podem ser acessadas no link www.instagram.com/augustomaltarevival


Texto publicado neste blog em 2017.

Amizade colorida foi antes



Definitivamente: não transforme seu amigo legal em um namoro ou até mesmo num flerte. Não vai dar certo! Juro.

Primeiro você o conhece. Nem ele e nem você acham um e outro realmente interessantes para se ter um relacionamento, porque claro, se fosse o contrário, vocês não teriam sido amigos primeiro... Pois é!

Tornam-se amigos, começam a ter a mesma turma, frequentam os mesmos lugares: os barzinhos, as baladas, um jantarzinho para a galera na casa de algum solteiro. Enfim, se tornam íntimos.

De repente você e o seu amigo, além dos demais, começam a falar dos ex numa boa, sempre naquele tom de “eu era mais legal que ele”. E amigo acredita nessas coisas porque são totalmente parciais. Começam a falar sobre histórias que já viveram sobre o assunto de um jeito cômico. Ninguém coloca nome aos bois, mas em regra geral, os homens aumentam e ironizam, e as mulheres, diminuem e disfarçam. 

Agora pense: é mais do que normal que duas pessoas da mesma turma se sintam atraídas, já que estão sempre próximas e fazendo programas juntos. Têm histórias engraçadas, marcam de sair juntos, mas nem sempre voltam juntos. Têm total liberdade para ironizar aquela paquera que o outro arranjou, a menos que ele declare realmente estar apaixonado. Aí acontecem duas situações: ou abandona-se a turma ou a frequência nos encontros diminui consideravelmente.

Mas, quando tudo isso ou quase isso já aconteceu e vocês já apresentaram um para o outro o primo legal, a amiga bacana e vocês realmente beijaram essas pessoas. Quando a amizade parece estar sólida (e está), você de repente acorda no meio da noite assustada porque sonhava que beijava justamente o amigo legal da turma. E pior: você acordou assustada porque gostou. E aí, como num passe de mágica, você começa a perceber que o tal amigo legal parece também estar interessado. E num dia qualquer, depois daquele sábado de sempre, entre bebidas e conversas fiadas, você chega em casa novamente pela carona do seu amigo. Mas, quando vai dormir, vê uma mensagem no seu celular. E pasme: a mensagem é uma cantada do amigo. E agora?!

Por incrível que pareça nesse momento todas aquelas histórias que vocês contaram um para o outro não parecem ser engraçadas. Não! Tornam-se estranhas. Você ficaria com um sujeito assim? Eu sei. Você ficaria. Ele é legal, sempre tão gentil, engraçado e bonito! Sim, porque no começo não era, mas depois de conhecê-lo melhor, você percebeu tantas qualidades que ele parecia até ter se transformado em outra pessoa!

Mas, e aquele primo dele que você já beijou? E sua amiga, que ele beijou? É tanta gente envolvida que um simples ficar seria desastroso. Mas, como o desejo ainda não tinha passado, o melhor seria então evitá-lo até o assunto ser esquecido. Não responder a mensagem e pronto!

Todavia, entretanto... Outro dia, a mesma carona e dessa vez você se pegou beijando seu amigo legal. E foi bom! Muito bom!

Aceite meu conselho: é o fim! Você nunca mais vai achar engraçado quando ele contar uma história sobre beijos estranhos porque você vai achar que ele está falando de você. Você não vai conseguir fazer nenhuma piada quando pegar ele olhando o traseiro da loira naquela festa. Vai ficar com medo de sentar perto dele, porque lógico, você vai pensar que ele está pensando que você está apaixonada por ele. Não vai ligar para ele chamando para nenhuma festa porque outra vez você pensou que ele vai pensar que você está apaixonada por ele... Confuso? Ah sim! Será o fim da amizade linda de vocês. E mal você sabia que amizade colorida era antes quando vocês não se beijavam!

Imagem: Filme Amizade Colorida/Divulgação
Texto escrito em 2006.

Quais árvores te viram crescer?




Manhã de fevereiro. As quaresmeiras estão floridas exibindo um roxo exuberante. Árvores da minha terra, Cerrado de arbustos, galhos retorcidos e folhas miúdas. Gosto de pensar que árvores são espíritos evoluídos cujas raízes estão presas ao solo por puro altruísmo. Nos entorpecem com suas belezas, nos abrigam em suas sombras e nos acalentam quando o vento bate em suas folhas fazendo-as cantar!  Após a chuva, nos abraçam verdejantes convidando os pássaros e as formigas para o seu dorso feito de casca e seiva. Sinto-me como se fizesse parte do equilíbrio, sendo simples elemento de um todo. Agradeço!

Nessa manhã de sábado em que o sol está abundante, percorro a MG 050 a caminho do casamento de um primo e celebro. Festejo a vida, o passar do tempo e as flores roxas.

_Pena que durem tão pouco!
_Pouco quanto?_pergunto.
_Um mês!

Ora um mês! Tempo suficiente para que as quaresmeiras façam a sua parte e sigam seu ritmo natural. 30 dias necessários para que uma pessoa mude um hábito, um mês suficiente para que uma mulher se apaixone! Um ciclo que se repete por anos a fio, brotando e secando, enquanto as crianças crescem. 

Reflito. Decoro a minha alma com a cor que os meus olhos sentem: agora com as quaresmeiras, adiante com as gabirobas, e em setembro, com os ipês-amarelos. Nos outros dias acinzentados, coloro a vida com o tapete dourado oferecido pelas sibipirunas, que mesmo espremidas pelas calçadas, nos homenageiam com o seu melhor!

Fui criada olhando para o topo de uma sucupira-preto e sentando-me à sombra de um velho pequizeiro. As árvores do Cerrado me viram crescer e nelas estão fincadas as minhas origens. Mata de tronco grosso e tortuoso, mas de raízes profundas, sobrevivendo entre a seca e a chuva.

Quais árvores te viram crescer?

As brincadeiras eram na rua e os celulares do futuro



texto sobre infância sem internet

As canelinhas magras e acinzentadas corriam pra lá e pra cá. Ora se debruçavam no asfalto para fazer um desenho, ora iam às alturas fugindo da bola arremessada pelas amigas. A rotina daqueles tempos não entediava ninguém: chegavam da escola, almoçavam, e as mais preguiçosas, ainda de uniforme escolar, assistiam um pouco de TV! Lá pelas 15h desciam a caminho da rua sem saída. Ali naquele pedaço de chão, amarravam uma corda e simulavam um time de vôlei, riscavam no asfalto o jogo da velha com um pedaço de argila, competiam para saber quem conseguiria fazer mais embaixadinhas, disputavam queimada, jogavam Bete, andavam de bicicleta, se arriscavam nos patins,  sentavam-se no paralelepípedo para bater um papo sobre a escola, os pais e os primeiros amores.

_Vamos brincar de quê?
Uma fazia a pergunta, outras respondiam, e sem delongas, chegavam a uma resposta.
_ E se a gente fosse à sorveteria disputar quem toma mais bola de sorvete?
E lá iam, empoleiradas na pequena Caloi Cecizinha da prima, se empantufarem na sorveteria.

Nas brincadeiras de rua, aprendíamos a viver! A ganhar e a perder, a quebrar o braço e pedir aos colegas para autografar o gesso depois, a fazer concessões, a reclamar e fazer as pazes. Os chinelos eram partes pouco importantes, visto que agora damos tanto valor aos nossos sapatos! Descalças, com os pés encardidos, voltávamos para casa, sujas e suadas. Exaustas! Gastávamos nossa energia vivendo o mundo lá fora: real e ainda primário.

Naquela escola da vida, os desafios infantis eram ingênuas representações do futuro. Nos perdoávamos com sorrisos, nos aceitávamos nas brincadeiras, disputávamos o quem perde, ganha, sem prejuízo moral. O sol queimava nossa pele, sem protetor solar, e a enxurrada lavava nossos pés. Fomos a última geração de crianças sem internet, desprovidas de smartphones, tínhamos cadernos de enquetes para saber as preferências dos amigos, sentávamos na porta de casa sem selfies para registrar. Colecionamos papeis de carta, escrevíamos bilhetinhos à mão para os amigos rasgando a última página do caderno e transcrevíamos a nossa música preferida apertando o botão Pause do toca-fitas.

Isso fez de nós uma geração privilegiada? A última que viveu a infância sem internet? Não há sim ou não como resposta. O que faz a infância ser uma página feliz em nossas vidas se relaciona às conexões humanas que estabelecemos, a segurança que sentimos no ambiente que chamamos de lar, ter acesso àquilo que nos permita dignidade! Oportunidades que estão além da tela de um celular. Mas, verdade seja dita, olho no olho ainda é bem melhor que câmera de 13 mega pixels!

Imagem: Pixabay/CC




Cinco filmes da Netflix para quem ama Literatura

A lista, a seguir, é dedicada para todos aqueles que amam a Literatura e as histórias invisíveis que habitam cada página escrita de um livro, sejam porque são baseadas em fatos reais ou porque foram frutos da mais genuína imaginação! 

Prepare a pipoca e viaje em cada uma dessas obras:

1. A Livraria (2017)


A viúva Florence Green, interpretada pela atriz Emily Mortimer, chega a um pequeno vilarejo no litoral da Inglaterra, na década de 1950, com objetivo de abrir uma livraria. Mas, ela não contava que seu sonho fosse afrontar pessoas poderosas do lugar, e ainda, o preconceito de uma população inteira em relação ao hábito da leitura. O filme tem uma linda fotografia e os diálogos quase soam desnecessários diante dos sentimentos que parecem correr apenas pelos olhos dos atores. No elenco, também estão Bill Nighy e Patricia Clarkson.

2. O Mestre dos Gênios (2016)


Um homem eufórico, prolixo e com uma escrita excessiva e protuberante. Talvez, estas sejam as melhores palavras para descrever o escritor americano Thomas Wolfe, interpretado por Jude Law, quando ele bate à porta do editor Max Perkins, vivido pelo ator Colin Firth, responsável por jogar luz a grandes nomes da Literatura como Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Dois personagens perfeitos para ilustrar os termos “talento bruto” e “olhar apurado”! Esta é a história de “O Mestre dos Gênios”, baseada em fatos reais, e que conta como Perkins, durante o início do século 20 nos EUA, conseguiu canalizar o talento literário de Wolfe. Nicole Kidman também faz parte do elenco.

3. A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (2018)


A escritora Juliet Ashton, interpretada por Lily James, recebe após o final da Segunda Guerra Mundial, uma carta de um membro de uma sociedade literária de um pequeno vilarejo à beira mar. Inicia-se assim uma troca de correspondências entre eles, o que desperta o interesse da escritora em conhecer a história daquele grupo que, durante o período da invasão nazista, formou um pequeno comitê de leitores. Ao chegar às ilhas de Guernsey, Juliet se envolve com o lugar e começa a perceber que existem muitas outras histórias para contar além das pacatas aparências.

4. Walt Disney nos bastidores de Mary Poppins (2013)


O filme é inspirado em uma história real e conta a saga do desenhista Walt Disney, vivido por Tom Hanks, para que a autora do livro Mary Poppins, Pamela Lyndon Travers, interpretada por Emma Thompson, vendesse os direitos autorais da obra para que ela se tornasse um filme. Determinado pela promessa que fez as suas filhas, Disney passou 20 anos insistindo com a escritora que não queria que os seus personagens fossem distorcidos por Hollywood. A obra também narra a complicada infância da mulher que criou a mágica Poppins.

5. Histórias Cruzadas (2011)


Por que assistir ao filme? Primeiro porque ele aborda a história do racismo nos EUA e como as empregadas domésticas na década de 1960, entre elas as personagens vividas pelas atrizes Viola Davis e Octavia Spencer, ainda sofriam a “escravidão moral” imposta pela sociedade. Segundo porque ele narra a história de Skeeter, interpretada por Emma Stone, que sonhava em ser escritora e enxerga na realidade que a cerca a oportunidade de contar as histórias das mulheres negras de sua época. Pode assistir mil vezes? Pode!


Créditos das imagens: Divulgação


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