Memórias de um capitão


Texto sobre memórias de família

Lembro-me na infância da minha família paterna fazendo burburinho pela visita dos tios e tias que moravam longe. Naquela época, cinco dos doze filhos de minha avó Isaltina e meu falecido avô Francisco, moravam em outras cidades e nos visitavam em Arcos, no Centro-Oeste de Minas, nas datas especiais.

Nesses dias de nossas férias, levávamos os primos da capital para passear na roça da minha outra avó para verem de perto as seriemas e outros bichos do mato. Em outros dias, nos amontoávamos, todos magricelos e pequeninos, no bagageiro do carro Marajó do meu tio Donato para irmos ao centro da cidade tomar sorvete com Coca-Cola, enquanto na porta da casa da vó Isaltina, outros tios ouviam modas antigas no último volume do som do carro.

Hoje, o calendário nos diz que isso tudo foi há muito tempo, mas no nosso coração, todas as sensações desses dias ainda estão frescas. Alguns tios voltaram a morar em Arcos, outros continuaram em suas cidades, mas minha avó Isaltina e meu tio Zé se foram para sempre, deixando em nós muitas histórias e saudades.

Cada um em seu canto foi viver a vida, enquanto crianças cresciam e nasciam, adultos envelheciam e as fotografias amarelavam.

Mas quão grata foi a surpresa quando a internet, além de todas as suas futilidades, também nos aproximou novamente. E transformou meu tio Dorival, o irmão mais velho, sempre silencioso e observador, em um memorialista da família. Ali, na sabedoria dos seus 70 anos, começou a escrever no Facebook suas lembranças e nos relatar os feitos da sua infância na casa de meus bisavôs em Luz (MG), contar como a vida era, ao mesmo tempo, tão dura e doce, e descrever nossos parentes, mesmo aqueles que nunca foram conhecidos por nós, em causos divertidos e até surpreendentes. 

Melhor que apreciar fotografias antigas de pessoas que não sorriam, por ignorância ou medo, é ler cada palavra e se aproximar dessa gente que – de alguma forma – ainda vive em nós. 

As histórias do meu tio, tão especiais para nossa família, se transformaram em um livro no seu aniversário de 71 anos para distribuição íntima. Com o título “Setenta e um – Contos, poesias e versos”, a obra figura na minha estante como uma publicação especial. Já me vejo, no futuro, lendo para meus filhos e netos, a história de um capitão que virou escritor depois de aposentado, do avô que forrava a arquibancada com um lenço branco para assistir aos jogos de futebol, do relógio de bolso lanco, da bisavó costureira e da avó que lavava à mão, com imenso capricho, roupas e mais roupas de seus doze filhos... Essas tão nossas memórias familiares!

Leia abaixo uma das histórias escritas pelo meu tio:
"Relógio Lanco 
O lanco de bolso, que marcou o tempo do passado, hoje não funciona mais e está guardado em uma gaveta em meu quarto. Nos momentos de reflexão ouço o seu tic-tac e vejo meu pai. Lanco relógio de bolso, que pena que não funciona mais. Humanos não são eternos. Que pena, resta saudades.Do lanco com corrente de prata, trago recordações e meu coração bate por ele.Meu pai, era torcedor do Cruzeiro Luzense. Algumas vezes ele me levou no campo para assistir jogos. Ele também era torcedor do Cruzeirão . Em Arcos-MG ele torcia para o Ipiranga. Sabe quem ele levava para assistir os jogos? O Dilermando.Para assentar na arquibancada ele forrava com lenço branco muito limpo.Ah! De vez em quando ele olhava as horas no lanco. Meu pai era um quase negro e alinhado. Não parecia nada comigo.Ah! Jogava bola, não sei se era bom, acredito que não. Dos filhos um que joga um pouquinho é o Donato.Ah! Meu pai mandava eu e o Deijair segurar um cabo de vassoura na altura do peito dele. Ele dava um passo para trás e saltava o obstáculo.Para jogar sinucão ele prendia o lenço na correia na parte da frente do corpo para não sujar a calça. Sabe quem estava lá? O relógio lanco com corrente de prata."
Dorival Bernardes de Almeida
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