A poesia de Adélia Prado

Cabelos brancos, um vestido preto com um discreto casaco claro estampado de flores. Um par de óculos de grau com delicados aros de metal e sapatos vermelhos como quem chega para dar um recado de amor. Assim entrou no palco principal do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em março, a escritora mineira Adélia Prado, aplaudida de pé por uma plateia que ocupou todos os 1.705 lugares do teatro apenas para ouvi-la.

Foram palmas de boas-vindas e gratidão por todos os versos que Adélia escreveu. Palavras que dizem respeito à nossa mineiridade, ao nosso sentimento universal e à força dos símbolos e crenças que habitam em nós.

A ocasião era especial: naquela noite se comemorava os 45 anos do Grande Teatro do Palácio das Artes, os 30 anos do projeto “Sempre Um Papo”, responsável pela presença da escritora, além dos 40 anos de carreira de Adélia, que lançava o livro “Poesia Reunida”. A obra agrega todos os seus poemas contidos nos livros “Bagagem”, “O Coração Disparado”, “Terra de Santa Cruz”, “O Pelicano”, “A Faca no Peito”, “Oráculos de Maio”, “A Duração do Dia” e “Miserere”.

São versos que dizem respeito ao universo de uma escritora de 80 anos, que nasceu em Divinópolis, no centro-oeste de Minas, filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. E que, desde a infância, mostrou talento com as palavras.

Histórias de vida e carreira suficientes para fazer com que toda a plateia fizesse um silêncio respeitoso para ouvi-la. Levados pelo sotaque mineiro da autora, que nos remete a alguém querido, que lê para nós uma poesia na varanda de casa, foi possível ouvir palavras de amor, fé e cuidado a respeito de nós mesmos e do nosso modesto cotidiano. Mais do que isso, ter a oportunidade de encerrar a noite, com um pedido delicado de Adélia para que trocássemos os autógrafos e selfies por uma oração do Pai-Nosso, como pedido de proteção para o Brasil nesse momento de crise, e que deixou a escritora com a voz embargada. Em uníssono, a oração universal encerrou o evento, em que foi possível ouvir Adélia Prado recitando... Adélia Prado.

Confira, a seguir, algumas frases marcantes na carreira da escritora. Entre elas, algumas destacadas durante sua apresentação no Palácio das Artes:

Cotidiano
“Tudo isso que nós cremos e nos faz felizes, se trata de mistério.”
“Fazer um pão, ou qualquer outra tarefa simples, nos devolve simbolicamente o prazer de existir.”

 “As coisas mais corriqueiras nos dominam. Isso não pode!”

Ser mulher
“Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.”

Vida
“Viver a vida com sentido, com significado, é que nos torna cada vez mais humanos.”

“A vida cotidiana já é heroica e nós temos que aceitar. Eu vou dar birra com Deus? Seja pobre, seja rico.”

Depressão
“A ausência de significados é a depressão.”

Chuva
“Só melhoro quando chove.”

Sociedade
“Nossa civilização padece de símbolos. Está tudo igual. Os ritos religiosos estão banalizados.”

“Estamos padecendo de deficiência de atenção. Nós não olhamos para o outro.”

“Eu preciso me modificar para que eu veja o outro.”
“Como vou querer paz no mundo com uma guerra no coração?”

Beleza
“Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isso vale nascer.”

“A beleza é um dos valores mais consoladores que existem.”

Convivência
“Se você não pode tocar uma pessoa, mude seu olhar por essa pessoa.”

“Às vezes vou pregar lá na África e deixo meu pessoal aqui faminto de amor.”

Poesia
“A poesia ajuda porque ela repercute dentro de mim, fala a nossa alma.”

“A poesia é o rastro de Deus nas coisas.”

“Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra mesmo.”

Mar
“Quem carrega o mar nos seus limites tem carinho com o mar.”

“Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota.”

“Tanto o poema, quanto a oração, exigem algo maior que precisa da minha aceitação.”

“Carl Jung dizia que devolvia seus pacientes para sua religião de origem: a semente da nossa vida simbólica.”

“A Bíblia é um livro de experiências profundas e humanas.”

“Eu não dou conta de aguentar minha velhice se eu não tiver uma fé.”

Deus
“Deus não é um fato teológico. Ele é para as pessoas uma experiência.”

“Quanto mais você descobre, mais o universo se alarga. Isso é Deus.”

“Perdoar Deus significa dizer: ‘Eu aceito, eu digo sim para a vida, para o meu corpo’.”

Velhice
“Hoje, temos a ideologia da juventude perpétua, que passa por remédios, ginásticas, plásticas e pelo desespero final, porque nada responde à nossa profunda fome humana, que é de ordem espiritual.”

Cidade natal
“Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong Kong, só que vivido em português.”

Laranjas dominicais
“Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas. Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta, a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas: ‘Eh bobagem!’ . Daqui a muito progresso tecno-ilógico, quando for impossível detectar o domingo pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas, em meu país de memória e sentimento, basta fechar os olhos: é domingo, é domingo, é domingo.”

Carreira
“Quando eu tenho uma carreira, posso estar triste ou alegre que tenho de trabalhar. Com a arte não é assim. O estatuto é dela.”

Compaixão
“Não tem ética nem salvação maiores do que estender a mão e doar o seu tempo. Quando estou escutando uma pessoa, tenho que escutar mesmo. Você não precisa dar esmola ao pedinte. Nem sempre a gente dá. Mas, olhe para ele, olhe-o nos olhos. Faça com que se sinta gente. Essa compaixão é a compaixão de Cristo, que chegou ao ponto de dizer: ‘Eu morro por vocês, eu me entrego’.”

Amor
“Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo.”

“O Cântico dos Cânticos, que faz parte da Bíblia, era proibido. As freiras não podiam ler. O erótico é aquilo que tem vitalidade.”

“A gente prega sobre o amor, mas o amor é coisa que se vive na poeira. É no encardido da vida que a gente prova as coisas. Quem não quer enfrentar está perdendo o tesouro da vida, porque é ali que sou provado. E a minha vidinha não tem diferença alguma da vida da Rainha da Inglaterra, porque ela é feita de cotidianos. Isso tira a pose de qualquer pessoa. Como é que eu posso ficar ‘posuda’ diante do outro, se somos todos farinha do mesmo saco? Somos humanos e temos que nos reconhecer nessa humanidade, no sentimento primeiro.” 


Quem é ela
Formada em Magistério e Filosofia, somente aos 40 anos, e cinco filhos depois, ela conseguiu lançar seu primeiro livro - “Bagagem”. A história desta obra começa quando Adélia envia, ainda na década de 1970, carta e originais de seus novos poemas ao poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade. Em 1975, Drummond sugere a Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam "fenomenais". O ano era 1976 e começava aí, publicamente, a carreira de uma das mais importantes escritoras vivas do Brasil, que teve seus textos também adaptados para o teatro. Entre eles, destaque-se o espetáculo “Dona Doida”, baseado no poema de mesmo nome e que foi protagonizado pela atriz Fernanda Montenegro, entre  as décadas de 1980 e 1990.

Onde encontrar o livro?

Assista ao vídeo completo do "Sempre um Papo" com Adélia Prado:



*Texto publicado originalmente na Revista Ecológico.
* Crédito das imagens: Jackson Romanelli
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