Os cinco sentidos da memória



Dizem por aí que a máquina do tempo ainda não foi inventada. Dizem! Afinal, quem nunca viajou para algum lugar do passado quando sentiu o cheiro de um perfume ou ouviu uma música em particular? Quem, por uma única vez que fosse, não fechou os olhos ao sentir um sabor e não experimentou ser novamente criança?!

Se o homem ainda não inventou - tecnicamente -  a máquina que nos leva aos anos anteriores, nosso corpo, entretanto, gentilmente nos presenteou com nossos cinco sentidos. Como não ouvir “For Whom TheBell Tolls”, na voz do grupo Bee Gees, e não sentir que novamente se está dançando de rostinho colado com a nossa antiga paquera?  Ou ainda saborear um picolé de morango e sentir que estamos na sorveteria preferida escutando as gargalhadas das nossas amigas de infância?! E aquele cheirinho de bebê que nos lembra os filhos ainda no colo... O suco de uva em pó que nos traz à memória as línguas coloridas e as diversões que eram, ao mesmo tempo, tão banais quanto verdadeiras?

O perfume das rosas que nos fazem lembrar o jardim de nossa tia, o cheiro de verbena que nos lembra o sabonete que usávamos na infância, o perfume masculino que era moda na década de 1990 e que nos remete ao namorado da adolescência... O sabor do bolinho de chuva, misturado ao do açúcar e da canela, que nos dão em poucos segundos muitos anos a menos, nos tornando assim, meninos e meninas de pés descalços que não fizeram ainda 10 anos de vida. As fotografias desbotadas que nos lembram, insistentes, que já fomos aquelas pessoas de cabelos e roupas estranhas, sorrindo para um mundo que não sabíamos como seria. A maciez da lã que nos lembra, ao toque de nossos dedos, a colcha que decorava a cama de nossos pais. A aspereza da chita que forrava a mesa da cozinha e que nos lembra um dia, em que tristes, a alisávamos sem parar, agoniados por uma resposta que tardaria tanto a chegar.  

Cada toque, cada cheiro, gosto, som e olhar, nos levando ao passado e nos trazendo de volta ao presente sentimentos que adormecem em nossos corações. Lágrimas que secaram, sorrisos que nos confortaram, músicas que foram nossa trilha-sonora particular, abraços apertados e perfumes de amor, que fazem de nós a pessoa que somos hoje. Sentidos que dão motivação ao seguir da nossa vida: nem sempre fácil, mas que exige de nós cabeça erguida, valentia e orgulho do nosso passado.  
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