A menina que eu fui


Era o ano de 1995 e eu tinha 13 anos. Estudava, desde os seis anos de idade, em uma escola que ficava na esquina ao lado da minha casa. Pública, organizada e respeitada pela qualidade. Lembro-me, que uma vez por semana, toda a escola era reunida no enorme pátio onde cantávamos o Hino Nacional e hasteávamos a bandeira. Nessas ocasiões, após o momento solene, uma das turmas tinha a oportunidade de fazer uma apresentação artística.  
Na época, adolescente, achávamos muitas vezes, aqueles momentos entediantes. Mas hoje, não conheço um colega daqueles tempos, que não se lembre com saudade e respeito desses dias. Um deles, inclusive, marcaria a minha vida para sempre.
Anualmente eram feitas gincanas escolares, coordenadas por equipes das turmas mais velhas, no caso a sétima e oitava série. Ganhava a equipe, que entre outras ações, arrecadasse mais produtos de limpeza para a escola. Minhas amigas e eu não perdíamos a oportunidade de participar e coordenar. Era trabalhoso, angustiante, e ao mesmo tempo, muito divertido!
Numa dessas ocasiões, reunidos no pátio, a diretora da escola anunciou no microfone, em bom tom, que todos nós deveríamos participar da ação de arrecadação, por que ora, “nenhum de nossos pais dava um real para a escola”. Imbuída do desejo de mudar o mundo, que infelizmente a gente perde em algum lugar do caminho, gritei lá do fundo – sem microfone – e com o coração disparado: “Dona Ciclana, a escola é pública!!!”
Foi o suficiente para que o colégio inteiro voltasse os olhos para mim! Naquele momento, meu coração já estava na boca.
E eis que a diretora me chama, pelo nome, ao palco.
E eu fui. Pernas trêmulas, boca seca, mas com a certeza de que eu estava agindo de acordo com meus princípios. Diga-se de passagem, muitos princípios!
A professora dizia alguma coisa, eu respondia outra. E a cada vez que eu falava, todos os alunos batiam palmas, entusiasmados. Foi o meu primeiro (e último) palanque eleitoral! Eu estava ali representando uma dezena de gente que pensava o mesmo, mas que não tinha coragem de se manifestar.
Sei que lá pelas tantas, uma outra aluna subiu, e ficou do lado da diretora. Não lembro se ela teve tanto apoio público quanto eu! 
No final, daquilo que foi um diálogo franco e democrático, a diretora se despediu de mim dizendo que “eu era a menina dos olhos dela!”, por ter sido verdadeira e honesta em meus pensamentos.
Os colegas me parabenizaram, já as professoras, nenhuma delas se manifestou. Não na minha frente ou comigo.
O fato é que, vinte anos depois, eu sempre me lembro dessa menina que fui. Impetuosa, gritando lá no meio do pátio, entre os alunos da escola. Simplesmente porque aquela colocação, era para mim, injusta. E sendo injusta, eu precisava me manifestar.
Quantas vezes na vida, eu fui novamente essa menina? Quantas vezes essa atitude desafiadora, voltou a minha lembrança, cobrando que eu ainda tenha, um pouco que seja, a coragem de lutar pelo que eu acredito? Confesso, que ela está mais aprisionada, que livre. Mais madura, decerto. Menos obstinada, talvez. Mas, o fato é que ela me faz falta! Ser aquela menina de 13 anos, cheia de sonhos e fé, ainda é importante para mim. 
E, diariamente, eu busco por ela. Algumas vezes a encontro, outras não. Nem sempre no espelho, eu consigo vê-la. Mas, de vez em quando, assim de relance, ela me surpreende, com o mesmo brilho nos olhos! Eu e ela, separadas por longos vinte anos. 
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