Uma casa no campo

Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar no tamanho da paz. E tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais.” Quem nunca cantou os versos imortalizados na voz de Elis Regina? Pois saiba que há pessoas, que, além de os ter cantado, também já deram adeus ao estresse da cidade para levar uma vida mais tranquila e conectada à natureza.
É o caso do casal Hugo e Manu Melo Franco. Em julho de 2013, os dois jornalistas deixaram a cidade de Lagoa Santa (MG), onde moravam, e partiram rumo à Chapada Diamantina (BA). Juntos, levaram só o que importava de verdade: os filhos Tomé, de dois anos, e Nina, que ainda estava “na barriga”.
Manu conta que eles viviam em São Paulo - maior cidade da América do Sul, cuja região metropolitana ultrapassa 20 milhões de habitantes - e que, quando engravidou do primeiro filho, ela e Hugo optaram por morar em Lagoa Santa para “desacelerar”. Com a segunda gravidez, decidiram que era o momento de realizar um sonho antigo: morar no meio da Chapada Diamantina, um paraíso de clima subtropical com 38 mil km² de paisagens inspiradoras, localizado no agreste da Bahia.
Para isso, venderam tudo que tinham. “Queríamos fugir das coisas que nos incomodavam, da vida na cidade, do consumismo, da falta de contato com a natureza, da violência, do alimento contaminado que se come e do ar poluído que se respira”, explicou ela.
Esse sonhou ganhou forma em um sítio de cinco hectares, localizado na zona rural de Piatã, cidade de 19 mil habitantes no centro-sul baiano. No terreno, doado pela mãe de Hugo, o casal foi morar em uma casa simples, ainda inacabada, mas com uma imensa vontade de recomeçar. Das comodidades urbanas, só não abriram mão da luz elétrica e da internet, pois, segundo Manu, “são necessárias para fazer contato com os amigos e familiares que ficaram longe”.
Seguindo os princípios da permacultura, criaram uma horta onde cultivam brócolis, tomate, banana, alface, cebola de folha, pimenta e outras opções de alimentos, que garantem a subsistência da família. O leite que serve às crianças vem de uma cabra, que vez ou outra, não produz muito. Mas, quando alguma coisa falta, os vizinhos fazem uma troca. Ovos, galinhas, mudas de beterraba e leite de vaca são algumas das “barganhas” entre os moradores do lugar.

Escolha convicta

O dinheiro ainda é necessário e Malu continua atuando como jornalista freelancer para ter uma renda adicional. Com isso, o casal compra produtos de higiene pessoal. No entanto, eles pretendem caminhar para uma vida cada vez mais sustentável, em todos os aspectos. Um dos objetivos é implantar um sistema de energia solar na casa, um banheiro ecológico e, ainda, construir um quarto de hóspedes, pois amigos e parentes sempre aparecem para visitá-los.
Para Hugo, que também cuida dos trabalhos braçais, cada dia é um novo aprendizado. “Ainda está sendo um processo, pois estamos desmontando pedaços da gente e substituindo por outros. Deixando conceitos e aprendendo, numa forma de troca, entre aquilo que tínhamos por aquilo que encontramos no nosso contexto, reconhecendo as verdadeiras necessidades. Abandonar a sociedade de consumo foi redescobrir um mundo diferente.”
Essa percepção faz da criatividade a palavra de ordem na casa. Um galho seco de goiabeira virou porta-toalhas. Um caixote encontrado na feira se transformou em uma estante para os brinquedos artesanais das crianças. Um cabo de vassoura amarrado a cordas faz o papel de um guarda-roupa. E recipientes de alumínio e vidro se transformam em potes.
A água que abastece a casa vem de nascentes, que são abundantes na região da Chapada. As águas da pia da cozinha caem em uma área de bananeiras, cujas raízes fazem o filtro das chamadas “águas cinzas”, tornando-as puras para o solo.
Para educar as crianças, principalmente o filho Tomé, de dois anos, ela busca na convivência próxima de mãe e filho instrumentos lúdicos que alimentem a inteligência do garoto. Conviver com outros pequenos, que não são poucos na região, também é um hábito sadio que ela incentiva. Favorável à pedagogia Waldorf, que tem como objetivo o cultivo das potencialidades individuais, além de levar em consideração a diversidade cultural da criança, Manu conta que pensa em cada coisa a seu tempo. “Por enquanto, quero estimular a criatividade dele dentro de casa, respeitando o momento dele brincar. Na hora certa, ele frequentará a escola”, diz.
Perguntada se continuaria morando na Chapada caso os filhos queiram um dia sair de lá, ela foi direta: “Quem dá as regras são os filhos! Quero ficar aqui até as crianças crescerem, mas, se elas quiserem sair, a gente vai se preparando para isso”.
Manu diz que a nova vida é muito trabalhosa, mas que, a cada dia, está mais convicta da escolha que fez. Enquanto aprende a cultivar alimentos, sem que eles estraguem na horta, esperar que os frutos cresçam e lidar com acontecimentos inesperados, como a morte do filhote da cabra, que foi picado por uma cobra, ela diz que tudo tem valido a pena. E essa vida tem sido tão especial que ela faz questão de registrar cada momento em uma espécie de diário virtual, com o qual ela compartilha belos textos e fotos do ambiente saudável em que vive. Que sejam felizes!


O dia a dia na Chapada - “Hugo e eu acordamos bem cedo, nunca passa das sete horas. Juntos, assim como fazemos em todas as refeições, tomamos nosso café da manhã cheio de coisinhas simples, naturais e saudáveis. Depois disso, o dia começa. A Nina, ainda bebê, ‘participa’ de tudo sem me roubar o ânimo. Na sequência, eu e Hugo lixamos madeira para fazer nossas prateleiras, regamos as plantas e brincamos na areia com Tomé. Fazemos almoço, lavamos as vasilhas, varremos a casa, lavamos roupa e ajudamos o ‘papai’ a limpar o pomar. Vamos à cidade (são 13 km de buracos até lá!) com o nosso carro, uma Saveiro, e, ao voltarmos, colhemos mexerica. Sentamos um pouco para descansar, damos banho no Tomé (e tomamos o nosso), jantamos e deitamos. Ufa! O tempo em família é longo, assim como as conversas e os carinhos que trocamos depois de um dia agitado e produtivo.”

A psicologia explica - Para a psicóloga Eda Fagundes, são várias as razões que levam uma pessoa a abrir mão de viver em grandes centros e se mudar para locais menores ou áreas rurais. Ela acredita que a vida nas cidades oferece uma série de atrativos e oportunidades, mas nem todos sentem esse modo de vida da mesma forma. “Existem personalidades mais sujeitas ao estresse, e outras que se identificam e gostam da vida calma, em lugar isolado, vivendo com prazer os limites que essa escolha impõe.”No entanto, diante das vantagens e desvantagens de cada escolha, o caminho é “cada um saber identificar, em si, os desejos e as possibilidades que quer abraçar em sua vida e arcar com as inevitáveis consequências de suas escolhas”. E completa: “É preciso salientar que o local de moradia e o estilo de vida das pessoas não determinam necessariamente sua felicidade. Apenas uma minoria consegue se desconectar da vida urbana e suas comodidades e migrar para uma vida rural.”

Saiba mais: 

*Fotos Manu e Hugo Franco/ Publicado originalmente na Revista Ecológico


0 Comentários

Deixe seu comentário aqui:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...