Casa e coração

Quando você vai embora um silêncio toma conta da minha casa. Nos primeiros minutos, eu não percebo. Apenas ajeito as coisas no lugar, troco a roupa de cama, lavo os copos e enfileiro os livros. Tomo o meu banho. Mas, quando olho para tudo em volta e aparentemente tudo está em seu lugar, eu percebo que algo continua bagunçado. Remexido aqui dentro! Nesse lugar que ninguém vê, mas que eu sinto constantemente, minhas gavetas mentais estão em desordem, as caixas de dúvidas estão abertas e os álbuns de fotografia revirados. Mentalmente as coisas estão em desordem. E, quando me olho no espelho, sozinha nessa casa, fica uma dúvida cruel do que é mais importante para mim: minha vida de solteira milimetricamente organizada ou meu coração de mulher pulsando?
O que é mais valioso? Os desejos guardados uns sob os outros durante os últimos anos ou a vida real com todos os seus sorrisos e decepções. Qual deles eu devo escolher?
Sinceramente eu não sei. Apenas vejo que os quadros estão alinhados na parede e os arquivos divididos em pastas, uma a uma, nomeadas no computador. E nesse controle do que é externo, eu sinto, que me organizo também. Se o que está do lado de fora, tem seus próprios cabides, seus armários e cantos, o meu coração também deveria ter.
Mas, não. Na casa dos meus sentimentos, as cortinas coloridas balançam ao sabor do vento, as folhas de papel rabiscadas estão jogadas pelo chão da sala. A cama permanece desarrumada e cheirando a alecrim. Vez ou outra, músicas tocam como mágica, e elas podem ser tristes e melancólicas, como também podem ser leves e divertidas. É assim a casa do meu coração! E é nela que você mora com todos os defeitos e qualidades. Com todos os “se”, “sim” e “não”. É nesse lar que a gente enche os álbuns de fotografias, as caixas com cartões escritos “eu te amo” e o mundo com nossas simplórias presenças.
E, se caso um dia, eu trocar a fechadura e te deixar do lado de fora, da casa de tijolos onde eu limpo e organizo, da casa-coração, onde eu caio e danço, eu sinceramente não sei ainda o que faria. E, talvez por isso, ambas as portas permanecem abertas para seus (e os meus) erros e acertos. Para nossa (continuamente) boa história.
Volte sempre!
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