Tim Maia: o síndico do Brasil


Cantor, compositor, produtor, multi-instrumentista e polêmico são apenas algumas das palavras que descrevem um dos homens responsáveis pela introdução do estilo soul na música popular brasileira: Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia do Brasil, que, mesmo após 16 anos de sua morte, continua em evidência. Sua vida e carreira se transformaram no livro biográfico “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, escrito pelo jornalista Nelson Motta. E inspiraram um musical de mesmo nome, que ganhou destaque na mídia cultural e promoveu o ator Tiago Abravanel.

Nascido no dia 28 de setembro de 1942 e criado no bairro da Tijuca, subúrbio da zona norte do Rio de Janeiro, Tim foi o filho caçula e mimado de uma família de doze filhos. A mãe, Maria Imaculada Maia, seria até o final da vida dela, a única pessoa que o marrento Tim obedeceria cegamente, o “obrigando” a sempre aceitar os convites de Chacrinha, que a matriarca adorava -mas ele não-, para cantar no programa do Velho Guerreiro.

Dono de uma voz poderosa e de personalidade forte, o cantor trilhou uma carreira de sucessos musicais como “Descobridor de sete mares”, “Réu confesso”, “Não quero dinheiro” e “Azul da cor do mar”, mas também ganhou a fama de não cumprir sua própria agenda de apresentações. Hábito que fez a cantora Sandra de Sá, amiga de Tim, declarar certa vez com humor: “Eu acho até que as pessoas se decepcionavam quando o Tim comparecia aos shows dele!”

Juventude e carreira
Aos 14 anos, cantou e tocou bateria no grupo chamado Tijucanos do Ritmo, formado na Igreja dos Capuchinhos próxima a sua casa. Aos 15 anos, Maia fundou o grupo The Sputniks. Um dos componentes era o jovem e desconhecido Roberto Carlos. Com um Tim brigão e genioso, a banda não durou muito. E ainda, com Erasmo Carlos formou o grupo musical The Snakes.

Aos 17 anos, após a morte do pai, foi em busca do sonho de conhecer a “América” e partiu para os Estados Unidos com 12 dólares no bolso e algumas mentiras para a família. Nos EUA aprendeu a falar inglês, conheceu o soul music, fez parte do grupo chamado The Ideals e teve o primeiro contato com as drogas, que o seguiriam quase até a morte. Envolvido numa turma barra pesada, chegou a roubar e foi preso por posse de drogas, voltando ao Brasil deportado, em 1964.

De volta e sem um tostão, contou umas “histórias” sobre a vida que levara nos States e fez bicos como guia turístico graças ao inglês fluente que conquistara. Mas, não duraram muito! O que Tim queria mesmo era cantar. A Jovem Guarda já explodia, e o gordinho da Tijuca resolveu ir atrás do antigo colega de banda: Roberto Carlos. Depois de muita insistência e de dobrar o coração de Nice Rossi, a esposa do Rei na época, Roberto gravou a composição de Tim: “Não Vou Ficar”. Era o primeiro passo de um artista que ainda começava a brilhar.

Drogas e obesidade
Conforme a fama aumentava Tim Maia engordava alternando com épocas em que estava menos obeso. Famoso por “criar” receitas estranhas como misturar coca-cola, groselha, creme de leite e leite condensado, além de ser fã de doces como quindins, o cantor ainda curtia coquetéis de  misturas perigosas: drogas e álcool, durante e pós-shows. Bebidas, muitas vezes, responsáveis pelas ausências de Tim em vários shows e programas. Entre eles, o “Domingão do Faustão”, fato que o fez ser vetado da programação da Rede Globo.

Justiça seja feita,  nem só de drogas e extravagâncias a sua carreira foi feita. Aos 32 anos, o cantor experimentou uma fase religiosa e “careta”. Atraído pela doutrina “Universo em Desencanto”,  Tim Maia mergulhou na cultura racional. Disse não às drogas, às bebidas e às relações sexuais que não tivessem como finalidade a reprodução e convenceu toda a sua banda “Vitória Régia” a segui-lo. Resultado: conseguiu emagrecer, a voz ficou mais nítida e compôs músicas como “Que beleza!” e “O caminho do bem”. A fase religiosa, considerada por  alguns fãs como a melhor de sua carreira musical, e para outros, a pior, não durou muito. Logo ele começou a criticar a seita e a retornar ao seu antigo e irreverente estilo de vida.

Sucesso e morte
O artista também colecionou ações judiciais, que iam de quebra de contrato por não comparecimento aos shows a inadimplência, muitas das quais perdidas somente porque não comparecia às audiências. Paralelamente às dívidas, o cantor foi um dos primeiros a ter sua própria gravadora, a Vitória Régia Discos e a editora Seroma, soma das sílabas de Sebastião Rodrigues Maia. E a estourar com sucessos que lhe rendiam shows lotados, da zona sul às periferias. Polêmico, Tim experimentou altos e baixos durante toda a carreira. Além de ter sido o famoso síndico da canção “W/Brasil” de Jorge Ben Jor. Mas, no fundo, tudo que ele queria, era um sonho bem comum, conforme escreveu certa vez na canção “Essa tal felicidade”: “De uma coisa eu não desisto, sou fiel não abro mão. De ter filhos, ter amigos, companheira e irmãos”.

Tim Maia morreu aos 55 anos no dia 15 de março de 1998, após passar mal durante um show. Faleceu devido a uma hemorragia digestiva, seguida de uma infecção pulmonar e outra renal. Deixou dois filhos, Telmo (Carmelo) Maia e o enteado Léo Dias, do relacionamento com Geisa Gomes da Silva, o grande amor de sua vida.

Confira a seguir as frases polêmicas e divertidas e trechos de músicas que marcaram a carreira do nosso “síndico”:

Tristeza
“A tristeza não existe. Quando estamos tristes, é porque a felicidade voltou a despistar-nos naquele longo caminho atrás dela.”

Drogas
“Não fumo, não cheiro e não bebo, mas às vezes minto um pouquinho.”

Dinheiro
“O mundo só será bom no dia em que todo o dinheiro acabar, mas que não me falte nenhum enquanto isso não acontece.”

Música
“Metade de minhas músicas são esquenta-sovaco e metade, mela-cueca.”
“Levo o meu canto puro e verdadeiro. Eu quero que o mundo inteiro se sinta feliz.”
“Não precisa de dinheiro pra se ouvir meu canto. Eu sou canário do reino e canto em qualquer lugar.”

“Se eu pudesse, só cantava. Quando eu paro de cantar,

faço besteira.”
“Roberto Carlos não é geniozinho. Ele é inteligente, batalhador e canta mais ou menos”
“Com os acordes que tem em uma música do Tom Jobim dá para fazer umas cinquenta”

Obesidade
“Fiz uma dieta rigorosa, cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas perdi 14 dias.”
Brasil
“Aqui, música romântica se chama brega. Se fosse assim nos Estados Unidos, os cantores deblues e todos os grandes crooners românticos iriam morrer de fome.”
Sabedoria
“Vale mais, quem sabe mais.”
“Somos agraciados pela nossa capacidade de transformar nossos defeitos em nossas mais belas qualidades.Só basta usarmos a sabedoria.”

Veto da Globo
“Isso é desumano. Nem no fundo musical do Xou da Xuxa eu posso cantar. Assim as crianças crescem sem saber quem é o Tim Maia”

Família
“Não está errado ser solteiro ou ser casado. O negócio é saber viver em paz.”
“De uma coisa eu não desisto, sou fiel não abro mão. De ter filhos, ter amigos, companheira e irmãos.”

Amor
“Amar é entregar o melhor de si a quem é o melhor pra mim”

“Não se sofre por amor, aí já é paixão... Não tem nada a ver

com amor.”
“O amor é circunférico, não existe outro lado do amor. O outro lado do amor é o amor maior.”
“É engraçado, às vezes a gente sente e fica pensando que está sendo amado, que está amando e que encontrou tudo o que a vida poderia oferecer. E em cima disso a gente constrói os nossos sonhos, os nossos castelos e cria um mundo de encanto onde tudo é belo.”
 “Quando a gente ama não pensa em dinheiro só se quer amar.”

Religião
 “A humanidade deve ser limpa, pois os princípios da sociedade são sujos.”
 “O caminho do bem é um só, é para todos.”

Saiba mais:


*Texto escrito e publicado originalmente para a Revista Ecológico
Imagens 1 e 2: Reprodução
Imagem 3: Sônia D'Almeida/Wikimedia
Imagem 4: Divulgação
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