Antes de mim

Na reencarnação passada, eu devo ter sido um dia de chuva. Não fui chuva brava, nem fui chuva mansa. Fui chuva boa caindo sobre as folhas verdes de uma mata isolada. Talvez, por isso, eu ame tanto chuva. Talvez, por isso, eu tenha nascido em dezembro. E, fique tantas horas, olhando pelas janelas da vida, as águas que caem sobre as margaridas e sobre as couves da horta.
Como se eu fosse a água que molha as penas dos pássaros, os deixando quietos e de olhos quase cerrados. Como se eu fosse as poças enlameadas, onde os bichos deixam rastros. Como se eu fosse sinais corriqueiros de um mundo maluco. Acho que é isso! Eu fui chuva, porque quando chove, eu sinto que minha alma está limpa. E quando tudo está molhando lá fora, eu tenho uma vontade enorme de acreditar em todas as coisas, mais uma vez. É uma fé que brota das águas que passam por veias e vielas, olhos e ruas, corações e telhados. Águas que entram no couro e no rosto. Água benta de chuva vinda do céu!
Agora eu sei. Fui um dia de chuva boa, porque eu já nasci com saudade. Saudade de lugares onde estive, embrenhada como água, mas que não me lembro mais. 

Imagem: Reprodução
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