Antes da morte chegar

Quando a morte bateu na minha porta, antes de abrir, eu fiquei uns bons minutos a observando pelo olho mágico. Eu precisava ter certeza  de que a aceitaria! Verdade seja dita, independente da minha vontade, ela poderia arrombar a porta, poderia escorrer pelo chão e passar pela fenda baixa, ou quem sabe, virar um pó e se embrenhar pelo buraco da fechadura. De todas as formas, ela iria entrar! Mas, ainda assim, eu quis ter a ilusão de acreditar, que eu precisaria abrir a porta antes. E, enquanto esses longos minutos não passavam, eu lembrei de tudo! Do primeiro dia de aula e da professora rechonchuda que nos olhava por cima dos óculos. Lembrei do dia que caí da goiabeira e quebrei o braço esquerdo, e por vários dias, foram escritos no meu gesso os nomes dos meus colegas e algumas declarações de amor. Coisas tão bobas! Mas, que ali pelo olho mágico, encarando a morte, eu me lembrei! Daria, inclusive, um dedo mindinho para viver esses momentos novamente.
E recordei o dia que meu tio Abilinho morreu e ele foi o primeiro defunto que vi na vida! Inclusive, ele deve estar nos degraus da escada agora, esperando a minha vez de subir. Com certeza, irá me olhar com espanto e dizer com aquela voz rouca: “Puxa, mas você envelheceu, moleque!” Vai ser engraçado.
Como engraçado foi o dia que perdi minha virgindade com a tia da minha prima, uns dez anos mais velha que eu. Ou quando fui demitido pela primeira vez na vida e mandei meu chefe tomar naquele lugar! Depois virou justa causa e não teve graça. Mas, me valeram uns trezentos sapos a menos no estômago.
Mas, enquanto os minutos se passavam e a morte, parecia esperar pacientemente, eu também lembrei do momento mais lindo da minha vida. E para reviver esse dia, eu não daria um mindinho, mas uma mão inteira. Era um domingo quente, daqueles de céu limpo e sol escaldante que deixam as marias-sem-vergonha murchas no jardim! Entrei no fusca suado e apavorado, enquanto minha mulher entrava do outro lado, com uma barriga que mal cabia no banco da frente. Era dia de Júlia! Ela iria nascer. Corremos ao hospital e algumas horas depois ela viria ao mundo. Foi o sentimento mais lindo que alguém pode sentir na vida! Quando aquele serzinho berrando, meio roxinho, encheu a sala de parto, eu tive certeza, que a única missão que eu tinha na vida, era cuidar dela.
E cuidei. Cuidei até uns dias atrás, mesmo vendo ela se aproximar dos trinta anos. Ensinei os nomes das cores básicas, ensinei a andar de bicicleta e a pedir “por favor”. Tive que sofrer calado quando a vi chorar pelo primeiro amor, e não caber em mim de felicidade, quando a vi no dia da formatura. Fiz meu papel de pai e a levei ao altar. E, até hoje, ainda acho que ela não perdeu aquele jeito de meninota travessa... E eu daria mesmo uma parte de mim para reviver cada dia desses! Daria.
Mas, agora não há mais tempo. E nem arrependimento! E quando olho para trás, eu sinto saudade dos lugares bonitos que visitei, uma alegria danada por cada momento que passei ao lado da minha família e amigos, e uma gratidão enorme, porque tudo foi importante e essencial. Tudo me fez melhor! E só mesmo a morte, me esperando ali do outro lado da porta, para me fazer entender o significado simples de ser feliz



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