Ao sabor da saudade

Todo domingo à noite é assim. Sozinha, depois de longas horas de silêncio e tédio, vou para a cozinha preparar uma receita que me distraia. Algo que lembre aqueles dias da infância, da minha avó cozinhando e uma casa cheia de gente. De um forno de barro grande, com uma portinhola preta que parecia cuspir biscoitos escaldados, pães-de-queijo e broas-de-fubá sem fim. Dona Maria, minha avó, parecia ter nos pés toda a juventude que o tempo lhe negara no rosto. Andava em passadas rápidas despejando na mesa uma infinidade de sabores que pareciam dizer histórias centenárias. Assim, como o polvilho que havia sido produzido ali, a chapa feita de lata de óleo, o cheiro dos grãos de café moído e a lenha jogada no canto que nos confidenciavam como algumas coisas não tinham mudado desde muito antes de nós. Como se as  vasilhas de alumínio abarrotadas de pães, as barrigas cheias, os corações mornos e as almas em paz, tivessem trançado naquele quintal de cimento grosso por anos a fio.
Memórias que me prendem agora em uma cozinha minúscula, que por costume ou por genética, nos ocupam, nos aquecem e nos reelaboram na paciência da espera. Então, quebro os dois ovos, acrescento a farinha, o açúcar e o fermento, obedecendo a medida justa da solidão. Absorvida pela tarefa, gosto de pensar que enlouqueci, que passei a madrugada inteira naquela receita infinita e incerta, e de repente o dia vai raiar... Mas, olho pela janela e o pedaço de céu que se apresenta é escuro, denso e sem resposta. E mais uma vez em silêncio, vou preparando esse bolo, que tem sabor de lembrança e cobertura de saudade...
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