O passageiro ao lado

Certa vez, me disseram que o escritor Carlos Herculano Lopes viajava sempre à cidade natal de ônibus, sentando-se rotineiramente  na poltrona 27. Dessa forma, sempre que alguém sentava ao lado dele, o autor puxava conversa como um bom mineiro, e dali, surgiam inspirações para as crônicas do seu livro, intitulado pelo hábito, de Poltrona 27.
Eu, que também tenho viajado muito de ônibus, lembrando desse fato, cheguei a conclusão de que também posso escrever um livro! Tudo bem, não será tão poético ou pragmático, já que não vou escrever sobre a história dos outros, e nem tão pouco, vou me sentar sempre na mesma poltrona. Mesmo porque prefiro o número 21 e não o 27.
Prefiro falar da infelicidade de não poder ter um carro, nem tão pouco uma carteira de motorista, o que me obriga frequentemente a viajar de ônibus, já que as passagens de avião nem sempre são baratas! Ou seja, noves fora, sobram eu, o busão e a mega-sena da virada que me sorteia, ora sim e outra também, com companheiros de viagens idosos ou obesos ou com gases! Com um pouco mais de sorte, as três características juntas!
Nada contra os idosos e obesos. Os que têm gases, desculpem-me, eu sou contra sim! O fato é que os idosos não conseguem dormir bem naquelas poltronas desajeitadas, e tão pouco, em BRs curvilíneas. Já os obesos, ocupam 50% da poltrona, que eu com meus 49 quilos, paguei totalmente, tendo lá os meus direitos de espaço!
A viagem que faço é Belo Horizonte - Rio de Janeiro, saindo da capital mineira por volta das 22h30, e levando, em média, 6 horas de viagem pela BR040, uma estrada recheada de curvas e "ótima" para os que enjoam ou não dormem com facilidade. 
Então, imagine você, nessas idas e vindas, sentada por longas horas ao lado de um senhor de mais de 70 anos que resolveu lhe contar a (breve) vida! Da construção de Brasília, no final da década de 1950, onde ele trabalhou como pedreiro, à festa de casamento do filho em Rio das Ostras (RJ), que segundo palavras do próprio velhinho, "tinha apenas 300 gramas de carne para 500 convidados". Esse senhor tão simpático, também não se incomodou de me fazer algumas perguntas, mesmo estando eu de olhos fechados, e quem sabe, por isso mesmo, dormindo! 
Mas, enquanto era só a conversa, ok! Triste foram os puns soltos, sem o menor pudor, depois dele ter consumido um churrasquinho de frango em uma parada do ônibus. Verdadeiramente, inesquecível!
Como também foi inesquecível a última vez, em que novamente EU, tive como companheira de viagem, uma senhorinha. Quando eu lhe perguntei, gentilmente: "A senhora aceita água?", e ela me respondeu: "Não, obrigada! Eu só tomo água com gás porque tenho sérios problemas com gases!"
Caro leitor, eu deveria responder, pedir explicações científicas sobre o comentário dela, ou apenas, enrolar uma camisa no rosto como fazem alguns assaltantes?! 
Pior, foi perceber a mesma simpática velhinha, abarrotada de várias sacolinhas com biscoitinhos, águas e demais coisas "essenciais" para uma viagem, ter passado toda a noite acordada, porque um dos seus saquinhos  foi  parar quase aos pés do motorista. E, por isso, se remexer inquieta até achar um infeliz que buscasse as quitandas jogadas ao chão.
Olhando a cena, ela de pescoço em pé, como se o percurso terminasse em cinco minutos, me senti um pouco compadecida. Porém, logo lembrei que ela deveria ser aposentada, e eu teria longas oito horas de trabalho pela frente, o que me fez ignorá-la e tentar dormir mais um pouco!
O fato é que, 50 minutos de voo entre BH e Rio, que parecem menos que 20 minutos, seriam mais fáceis para se ouvir uma boa prosa de um velhinho ou mesmo sair do meu lugar, enquanto o arzinho mau cheiroso evapora. Mas, de ônibus é complicado! Eu, que sento sempre ao lado da janela, teria de fazer um malabarismo para sair do meu cantinho e tentar me esconder naqueles banheirinhos medíocres.
Entretanto, para dar uma de Pollyana, e fazer o meu Jogo do Contente, prefiro pensar que nunca me sentei ao lado de um tarado, e que se a verba é pouca e as situações nem sempre boas, no final, o riso é certo


8 Comentários
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Cris e suas crônicas sempre ótimas!!! Quando sai o livro?

Balas
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Muito bom Cris!!! hehe... Tô com Priscila: Quando sai o livro?

Balas
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Bom dia Cris,



Gostaria de parabenizá-la pelo trabalho maravilhoso! Entrei no seu blog e me apaixonei...

E gostaria de saber se você pode me dar umas dicas de livros?

Atenciosamente.

Karoline

Balas
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Cris minha querida... quanta saudade... que bom que te encontrei na net... li sua crônica e ADOREI... saudade. Beijo grande.

Balas
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Ah que surpresa boa ver vc "padre" Fábio Costa!!! rs Anossss que não o vejo! Fico feliz que gostou do blog!

Balas
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hahahaha...criiiiiis menina! ri demais dessa cronica, pq sempre q viajo d onibus me acontece algo parecido..coisas bizarras!!
E oh, to com a galera ai...qdo eh q sai seu livro?! Esse Cricas&Dicas ta demorando heim!! kkkkk

Balas
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Amei!!!Que orgulho dessa minha amada cunhada!!!!������

Balas
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Muito engraçado. Como sempre, muito bem escrito. Parabéns!

Balas

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