Fio puxado

Em 365 dias, faz se um ano.
Deste ano, desfaz-se uma colcha de crochê. Aquela que emaranhamos durante nove meses com fino traçado, elegante cuidado e carinhos velados! Foi num dia frio e já previsto, que você puxou a primeira linha! E foi puxando de forma a distanciar-se, a desmanchar aquela colcha que eu pretendia me aquecer, todas as vezes, eu disse TODAS AS VEZES, que eu sentisse frio e medo! Ela tinha uma cor viva, nos cantos algumas flores, e no meio alguns pontos mal feitos que acabamos por deixar lá...
Um dia dormia na sua casa, no outro na minha! Vinha com seu cheiro e eu adorava! Ia com o meu e você, para me irritar, reclamava!
Mas, quando você foi esquecendo aquela colcha, tecida durante meses, no canto da minha cama...Quando dizia que suas costas doíam, que sua mala estava cheia ou que, simplesmente não podia, eu via a colcha lá...De repente, percebi que no lugar do perfume, estava ficando um cheiro alérgico de poeira... Aquela mancha de vinho, que me lembrava o primeiro "eu te amo", estava escurecendo, e por hora, pensei mesmo que tivesse se tornado um bolor...
Mas, mesmo as flores no canto, os pontos mal feitos e a mancha de vinho sumiram pouco a pouco, conforme você foi puxando a linha!
Tentei fechar a porta, te impedir, mas você já estava lá fora puxando o fio fino que passava debaixo!
Desde então, passou-se um ano...Da colcha sendo feita à linha que desmanchou todo o resto!
Senti frio, fiquei com medo...Enxuguei lágrimas em retalhos espalhados pela casa!
Quando sozinha me aqueci, quando não quis mais chorar, agora que deixei o crochê e aprendo a bordar, vem você bater à minha porta?!
Vem oferecer novelo e agulha nova?!
Não gosto mais de crochê, tenho sim, bordado pássaros em outras fronhas macias... Pássaros estáticos, que voam apenas dentro de mim!
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