Olhos profundos

Ele tinha o olhar profundo, lânguido, como quem pedisse um sonho na rede da varanda. Nas conversas sérias, nos papos soltos, o olhar era sempre tão infinito, que doía. Enquanto falava, ia olhando, olhando bem dentro. Vez ou outra Alice abaixava os olhos para fugir. Aquele olhar incomodava! De repente tinha a sensação de que ele adivinharia todos os segredos dela, aqueles guardados tão criminosamente.
Ela preferia os silêncios que faziam, e que mesmo assim, permitiam que se olhassem nos olhos mais um pouquinho. Era um medo excitante! Um medo que a fazia ter vontade de falar: 

_Adivinha então meus temores, que te dou coisas melhores! 
Mas, não...Ele sentava ali na frente dela, brincava um pouco com o copo que estava na mesa e soltava palavras bobas.
Aí então, olhava bem, bem nos olhos dela, e sorria.
Não havia um sorriso que acalmasse, pois o olhar invadia todos os espaços.
Alice então, rompeu o medo:
_Eu já te disse que você tem o olhar mais lindo e mórbido que já conheci?
Ele riu com pouco caso e falou:
_E que você foge de meu olhar porque esconde coisas? Eu já te falei?
Aquela sinceridade irônica desceu pela espinha da moça, parou gelada no estômago. Ficou com vergonha.
Então, o rapaz arrematou:
_E não há nada mais instigante do que mulheres com segredos.

1 Comentários
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"É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade" Clarice Lispector

Balas

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