A flor e o vento

Ele a seguia entre os becos, olhando pelas frestas. Onde restasse um pouco do perfume, ele absorvia, deixava-se levar! Não era mais hora de dizer olá ou mesmo volta, ficara tudo tão mais cômodo quando ele ficou longe. Ela não tinha mais tantos defeitos, nem sua voz o irritava mais. Era bela porque estava inicial, como antes... Aquele antes perdido!
Vez ou outra ele preferia fechar os olhos, ignorar... Não pediria mais os sonhos dela, não buscaria alguma pista. Era dia de saudade, e em dias assim, tudo doía tanto, que era mais fácil fingir.
Ele bem sabia que a estrada dela estava ficando cada dia mais distante, mais comprida. Mas, havia uma decisão parada no ar, a decisão de não agir...
Naqueles dias de sol batendo na janela ou de chuva miúda, nos bares de forros velhos ou de ligações inequívocas, era sempre mais fácil não estar lá...
Dia sim, dia não, acordava e via algumas pétalas espalhadas pelo quarto. Era ela indo embora, todo dia, aos poucos... A primeira vez jogou as debaixo da cama, na segunda, pisou ... Na terceira não as viu mais!
Teve a impressão que o retrato, antes colorido, havia desbotado. Quase um preto e branco... Na caixa de cartas, uma poeira pousara, ficou ali tão escura e densa, que fechou-se como se tivesse com cadeado.
Aos poucos, ele não mais percebia. Parou de seguir, de saber, de entender... Deixou o vento levar o perfume dela, a traça roer as cartas, a vida ficar sem graça... Enquanto ela ainda passava pelos becos, entrecortava algumas ruas, na esperança de vê-lo escondido, a observá-la em algum lugar.
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