Mero observador

Ele tinha o hábito de todos os dias, abrir a janela do apartamento e observar a rua lá embaixo. Ali do 3º andar conseguia ser um observador discreto que com a frequência do ato, sabia dizer quem, o quê e como pessoas e fatos aconteciam. Sabia que uma morena que trabalhava ali na região saía duas vezes na semana, durante o horário de almoço, para entrar num carro prata e quase sempre voltava com cabelos molhados. Sabia que às 11 horas passava ali pela rua um doceiro, com uma cesta de palha e um guarda-chuva debaixo do braço, fosse o tempo que fosse! Que três adolescentes uniformizadas desciam a rua falando alto e brincando sempre na calçada do lado esquerdo. E que com meia hora a mais ou a menos, um aposentado cruzava a rua vindo, suponha, de uma caminhada. Alguns personagens apareciam e sumiam, outros de tão rotineiros, eram tediosos...
Mas, naquele mar de gente e hábitos, havia uma que tinha uma certa redundância de costumes, e que ele tinha um interesse especial.
Desde os hábitos mais comuns, ela mantinha gestos delicados e tão tênues, que somente um bom observador saberia vê-los.
Ela tinha uns cabelos lisos e castanhos, sempre soltos. Lá de cima o sol refletia neles e dava um belo aspecto! Não era fácil ver o rosto dela, mas em alguns relances sabia que era um sorriso forte. Ela passava na frente do prédio, algumas vezes sozinha e outras vezes acompanhada por mais mulheres. Falava tão alto que podia ouví-la! Mas, nada era igual quando ela passava por ali só. Era como ter tempo para ser ela.
Ele lá de cima filmava lentamente os gestos: ela corria os dedos nas grades, e vez ou outra apalpava as flores que desciam recostadas num muro. Um dia ela parou no trajeto, e fazendo um esforço, ele lá de cima pode entender o motivo: um passarinho estava próximo e ela ficou ali uns dez minutos quieta só o observando.
Era isso que ele gostava nela: ele olhava gente, ela olhava coisas, matos, bichos. O olhar dela completava o dele. Ele sentia ver um cinza, ela parecia ver nuances. A ideia de descer e conhecê-la melhor começou a rondar sua cabeça. Entre o medo e receio, desceu e esperou que ela passasse. Quando ela dobrou a esquina e subiu o morrinho num gesto habitual, ele parou bruscamente em sua frente. Tinha os olhos claros, foi a única coisa que ele pensou.
Ela um pouco surpresa, gentilmente falou:
_O senhor precisa de alguma coisa?
De repente, ele que não estava mais no alto de um prédio, observando superiormente, se deu conta:
Ele tinha 65 anos, e ela talvez, não mais que 25.
Sentiu como se tivesse caído do 3º andar direto para os pés dela. E desculpou-se:
_Pensei que a conhecia! Desculpe-me...
E voltou para o apartamento, onde observar, sem se envolver, era mais seguro.
2 Comentários
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Hei Cris, joia!?
Fiquei sensibilizado com o sessentão! Dá próxima acho que ele deve se decalrar!!! ahahahaha
bjo.
Fidel

Balas
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hahah Ok Fidélis!!! Eu faço a parte 2 rsrsrs

Balas

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