Trauma de infância

Confesso que fiquei muito aliviada, no dia em que uma amiga quase-psicóloga (ela se formaria alguns meses depois) me disse: “As pessoas acham que não podem ter raiva dos pais, que é pecado sentir mágoa deles, mas isso é um sentimento normal”
Meu Deus! Desde esse dia me senti outra pessoa... Eu me torturava todas às vezes que ficava com raiva da minha mãe pelos micos que ela me fez pagar na infância. E diga-se: não foram poucos e nem leves!
De todos o que mais me enraivece, agora que já estou em paz com meu subconsciente, e posso dizer assim, foi quando a minha mãe me obrigava a ir às festinhas dos meus amigos com meu vestido de quadrilha... Simmmmmmmmm!! Você não leu errado! Minha mãe fez isso comigo...
O fato é que eu sempre adorei dançar quadrilha. E aos oito anos precisava de um vestido novo. Ela então, com muita doçura, ou seria sarcasmo?, costurou um lindo vestidinho... Lindo para quadrilha, claro! Era xadrez de preto e branco, tinha as mangas compridas e os detalhes eram todos de fita vermelha: na cintura, no barrado, na gola e nas pontas das mangas... Fiquei mesmo muito graciosa nele, com duas trancinhas e pintinhas tipicamente caipiras. O fato é que minha mãe deve ter me achado realmente muito linda vestida daquele jeito e resolveu infernizar minha vida após confeccionar o trajezinho caipira.
Sempre que recebia um convite de aniversário de algum coleguinha de escola, minha mãe pontuava:
_Vai usar seu vestido xadrez, senão, não vai!
Eu, desesperada, batia o pé e dizia que não, que aquele vestido era de quadrilha e que eu não iria colocar. Mas, entre a mãe e uma menina de oito anos, quem pode mais? Para não perder os brigadeiros ia eu, metida no pano xadrez dar os parabéns aos amiguinhos. Na festa, ficava no cantinho emburrada e danada da vida. Comia logo os docinhos, rezava para que os parabéns fossem rápidos e voltava para casa.
Assim foi em mais algumas oportunidades, mas uma delas me marcou profundamente. Já fui até alertada que deveria procurar um psicólogo por isso!
Era domingo. Eu morava numa cidade de interior e naquela ocasião acontecia na cidade a festa agropecuária. Um parquinho de diversão tinha sido montado para nossa alegria e todos os pais levariam seus filhos. Inclusive os meus! Quando me preparava para sair, mamãe anunciou:
_Coloca o vestido xadrez!
_ Nãooooooooooooo mãe! Não!
_Se não colocar, vai ficar em casa!
Vítima de chantagem num domingo às 14h, vesti-me à moda caipira.
No parque enquanto espera minha vez para entrar no carrinho bate-bate, uma coleguinha de escola aproximou-se e pegando no punho do meu vestido, assim com apenas dois dedinhos, perguntou:
_ Esse vestido é de quadrilha, não é?!
Crianças às vezes são tão cruéis. Mas, nenhuma delas superam minha mãe, que toda vez que conto essa história, cai na risada e diz:
_Mas, aquele vestido era tão bonitinho!
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