O velho Uridinho

Nas proximidades do bairro, era conhecido como “Uridinho”. Um senhor de seus sessenta e poucos anos, sempre vestido com uma camisa de botões, calças compridas, botinas e um chapeuzinho, ora de palha, ora de veludo. No bolso da camisa sempre tinha um pito de palha, para ser sincera, o pito de palha nunca estava lá, e sim, entre os dedos e a boca. Os dedos eram amarelados pelos anos seguidos de fumo, e pelo fato dele não perceber quando o pito se transformava apenas numa birinha curtinha a lhe sapecar a pele. Quem tivesse tempo para observar, saberia que bem cedo ele saía de casa e passeava pelos comércios que existiam: ia às padarias, aos bares, ao açougue, ao mercado e tudo que tivesse um montinho de gente a mais.
Quando Uridinho se aproximava, uns riam, outros saíam, outros fingiam que não o viam, e ainda outros o ouviam. Uridinho era, para nós leigos, louco!
Sempre que chegava a algum ponto, disparava inúmeras frases sem sentido, que se repetiam infinitamente sem nenhum propósito ou nexo. Com sua voz frágil e o sotaque extremamente mineiro, Uridinho contava estórias, falava nomes e expelia perdigotos em seus interlocutores!
Na juventude, quando ainda não era louco, trabalhou no roçado para meu avô. Segundo minha mãe, costumava sempre almoçar entre a família dela e, acredito, não ter esquecido nunca deste fato, pois sempre que me via, Uridinho falava:
_ Ulissinho, aquele ladrão! Robô minhas terras toda!
Ulissinho era o apelido de meu avô, e boa parte das pessoas com quem Uridinho trabalhou na juventude, tornaram-se depois de sua loucura, em fantasiosos ladrões de suas terras. Estas, que não sei dizer se realmente existiram.
Certa vez, cismou com minha avô paterna que sempre sentava num banquinho na porta da casa dela, e deu lhe um murro na cabeça. Minha avó indignadíssima, Uridinho completamente indiferente.
Algum tempo, quando lhe vi, aproximou-se de mim e disse:
_Cê é fia do Ulissinho né? Ulissinho ta lá trancado dente de casa. Tem que i lá savá o Ulissinho. Uns barranco assim ó em vorta dele e Ulissinho trancado.De repente, deu-lhe um lampejo de realidade e disse:
_ Ce não é fia do Ulissinho não né? Ce é fia dele ... (Apontando para meu pai). É porque tenho q sabe de quem cê é fia, pra sabe o que to falando com cê...Olhei intrigada para ele, porque na primeira vez na vida, me falou algo que fazia sentido.
Nem um mês depois, recebo a ligação de meu pai dizendo que Uridinho tinha morrido. Deitou para dormir e não acordou mais! Morreu dormindo feito passarinho... E me lembrei então que desde criança eu sempre o via, ali entre nós, no meu bairro, zanzando pelos comércios, ouvindo suas loucuras, e foi aí que me dei conta que eu se quer sabia seu verdadeiro nome. Era apenas Uridinho!


*Imagem meramente ilustrativa/Reprodução
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