A Carta




De Algum Lugar, 19 de fevereiro de 2018
Olá querido,

Hoje o dia está tão quente que sinto os canários sem força para voar! Os pequenos até parecem estátuas amarelas cujo único intuito é o de enfeitar árvores. E enquanto o vapor sobe da terra confundindo a minha visão, blasfemo contra a vida, essa monotonia infernal e o fato de estar aqui tão longe de você! Por isso, peguei a caneta, rasguei uma folha do caderno e decidi fazer algo que fiz pela última vez, ainda criança na escola, como atividade de Português: escrever uma carta de próprio punho. Lá pelos idos de 1990, o computador não era utensílio essencial nas casas, tal como a televisão e a geladeira, e a internet era uma ideia tão distante que nos parecia impossível. Escrever uma carta parecia algo que precisaríamos realmente aprender como forma de passaporte para um mundo adulto. “Beltrana escreve cartas, já é uma moça!”

Pois bem, as escrevi. Uma foi enviada a uma prima de terceiro grau que morava em Divinópolis, terra da escritora Adélia Prado, distante uns 100 quilômetros da minha cidade. A outra, enviei a uma coleguinha de sala que foi morar em outra cidade – e que acredite – também era Divinópolis. O mundo era muito pequeno naquela época e só fui ficar mais de 200 quilômetros longe da minha terra natal na adolescência, sentindo que havia feito a maior viagem da vida! O fato, você sabe, é que não andei muito longe por aí, e fazer viagens nunca foi um hábito. A única coisa agora que me faz crer estar tão longe é que o celular, neste fim de mundo, não capta sinal algum e já li o terceiro livro que trouxe para cá! Realmente, não será fácil vencer esses seis meses!

Tio Chico está dormindo, e mesmo com o ventilador ligado, o pobre sua em bicas. Olho para ele e entendo como gratidão é uma dívida que nunca se paga. Por mais que me aborreça o fato de ter que ficar aqui nesse lugar esquecido por Deus, o faço por ele, e por todos os anos em que cuidou de mim como se fosse meu próprio pai. Muito mais que isso até! Não saberia estar em outro lugar em que ele não estivesse desde que esta maldita doença o absorveu. No fundo, eu sempre soube que meu tio solteirão, piadista e amoroso, precisaria de mim em algum momento da vida. Eu era menina e já sentia, que para onde ele fosse, eu o seguiria. 

Aliás, não por gratidão! Mas, pelo amor profundo que sinto por ele! Amor suficiente para largar a cidade barulhenta que tanto amo para me enfiar no meio do mato onde ele decidiu passar os últimos dias de sua vida! Ele sempre me diz, com o fio de voz que lhe restou, que eu aquiete meu coração e trabalhe meus ouvidos no silêncio invasivo que está em tudo por aqui! Eu o respeito e acredito no que ele diz. Ele sabe que a fumaça dos carros enegreceu meu coração, e que essa paz que tanto nego, é realmente a que eu mais preciso. Afinal, é no silêncio e nas poucas companhias que estaremos sempre diante de nós mesmos!

Pois bem, meu amado filho, sinto sua falta... Mas, só o fato de escrever para você, alivia meu coração. Creio até que o meu mau humor tenha passado! Assim que for ao centro mais próximo, despacho a carta, mas claro, avisarei que a estou enviando pelo celular. Escrever cartas é um gesto saudosista, mas a tecnologia é inegável em sua presteza. Assim que tio Chico acordar, contarei sobre essa minha ideia retrógrada e ele sorrirá, emendando logo, “Mande um beijo para ele!”. Está enviado! Enquanto isso, conto cada folha seca que cai nessa terra, esperando a sua próxima visita e pedindo que o tempo seja benevolente com nosso querido tio.


Beijos de sua mãe.



Memórias de um capitão


Texto sobre memórias de família

Lembro-me na infância da minha família paterna fazendo burburinho pela visita dos tios e tias que moravam longe. Naquela época, cinco dos doze filhos de minha avó Isaltina e meu falecido avô Francisco, moravam em outras cidades e nos visitavam em Arcos, no Centro-Oeste de Minas, nas datas especiais.

Nesses dias de nossas férias, levávamos os primos da capital para passear na roça da minha outra avó para verem de perto as seriemas e outros bichos do mato. Em outros dias, nos amontoávamos, todos magricelos e pequeninos, no bagageiro do carro Marajó do meu tio Donato para irmos ao centro da cidade tomar sorvete com Coca-Cola, enquanto na porta da casa da vó Isaltina, outros tios ouviam modas antigas no último volume do som do carro.

Hoje, o calendário nos diz que isso tudo foi há muito tempo, mas no nosso coração, todas as sensações desses dias ainda estão frescas. Alguns tios voltaram a morar em Arcos, outros continuaram em suas cidades, mas minha avó Isaltina e meu tio Zé se foram para sempre, deixando em nós muitas histórias e saudades.

Cada um em seu canto foi viver a vida, enquanto crianças cresciam e nasciam, adultos envelheciam e as fotografias amarelavam.

Mas quão grata foi a surpresa quando a internet, além de todas as suas futilidades, também nos aproximou novamente. E transformou meu tio Dorival, o irmão mais velho, sempre silencioso e observador, em um memorialista da família. Ali, na sabedoria dos seus 70 anos, começou a escrever no Facebook suas lembranças e nos relatar os feitos da sua infância na casa de meus bisavôs em Luz (MG), contar como a vida era, ao mesmo tempo, tão dura e doce, e descrever nossos parentes, mesmo aqueles que nunca foram conhecidos por nós, em causos divertidos e até surpreendentes. 

Melhor que apreciar fotografias antigas de pessoas que não sorriam, por ignorância ou medo, é ler cada palavra e se aproximar dessa gente que – de alguma forma – ainda vive em nós. 

As histórias do meu tio, tão especiais para nossa família, se transformaram em um livro no seu aniversário de 71 anos para distribuição íntima. Com o título “Setenta e um – Contos, poesias e versos”, a obra figura na minha estante como uma publicação especial. Já me vejo, no futuro, lendo para meus filhos e netos, a história de um capitão que virou escritor depois de aposentado, do avô que forrava a arquibancada com um lenço branco para assistir aos jogos de futebol, do relógio de bolso lanco, da bisavó costureira e da avó que lavava à mão, com imenso capricho, roupas e mais roupas de seus doze filhos... Essas tão nossas memórias familiares!

Leia abaixo uma das histórias escritas pelo meu tio:
"Relógio Lanco 
O lanco de bolso, que marcou o tempo do passado, hoje não funciona mais e está guardado em uma gaveta em meu quarto. Nos momentos de reflexão ouço o seu tic-tac e vejo meu pai. Lanco relógio de bolso, que pena que não funciona mais. Humanos não são eternos. Que pena, resta saudades.Do lanco com corrente de prata, trago recordações e meu coração bate por ele.Meu pai, era torcedor do Cruzeiro Luzense. Algumas vezes ele me levou no campo para assistir jogos. Ele também era torcedor do Cruzeirão . Em Arcos-MG ele torcia para o Ipiranga. Sabe quem ele levava para assistir os jogos? O Dilermando.Para assentar na arquibancada ele forrava com lenço branco muito limpo.Ah! De vez em quando ele olhava as horas no lanco. Meu pai era um quase negro e alinhado. Não parecia nada comigo.Ah! Jogava bola, não sei se era bom, acredito que não. Dos filhos um que joga um pouquinho é o Donato.Ah! Meu pai mandava eu e o Deijair segurar um cabo de vassoura na altura do peito dele. Ele dava um passo para trás e saltava o obstáculo.Para jogar sinucão ele prendia o lenço na correia na parte da frente do corpo para não sujar a calça. Sabe quem estava lá? O relógio lanco com corrente de prata."
Dorival Bernardes de Almeida

Minha vida de menina e a Diamantina de outros tempos


Resumo de Minha vida de menina - Helena Morley

Li “Minha vida de menina”, escrito por Helena Morley, pseudônimo da mineira Alice Dayrell Caldeira Brant, quando tinha 14 anos. Na escola onde eu estudava havia uma pequena biblioteca com obras suficientes para atender meu gosto pela leitura. Caminhando pelos pequenos corredores da sala fui atraída pelo nome do livro, já que afinal, eu também era uma garotinha cheia de ideias. Levei-o para casa, li cada página e nunca mais me esqueci dele! Tanto, que três ou quatro anos depois, qual foi a minha surpresa ao descobrir que ele era um dos livros indicados para o vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A obra, que escolhi por acaso e memorizei por gosto, cruzou meu caminho algumas outras vezes na vida: citada em outros vestibulares, dada como presente de amigo-oculto para algum colega próximo ou mesmo resgatada pela minha lembrança como um delicioso livro. Aliás, “Minha vida de menina” e “O Pequeno Príncipe” são os livros que planejo dar a minha sobrinha quando ela chegar à pré-adolescência, um desejo que ainda levará uns oito anos para ser cumprido... 

Resenha - “Minha vida de menina” foi escrito por Alice, uma garota filha de pai inglês e mãe mineira, que vivia em Diamantina (MG) no século 19. Aconselhada pelo pai a escrever em um diário, a garota registrou nos anos de 1893 a 1895, com olhar muito próprio e espontâneo de sua idade, relatos da rotina de sua casa, escola, amigos e familiares, em um período que a cidade enfrentava a crise da mineração com a escassez dos diamantes e a recente abolição da escravatura no Brasil. As páginas mostram questões muito próprias daqueles tempos, tais como, a situação social dos negros libertos, o papel da mulher na sociedade, os protocolos religiosos, as comidas típicas e as dificuldades financeiras do pai da autora.

Apesar de escrito no final do século 19, o diário de Helena Morley só foi publicado em 1942, quando a autora manifestou o desejo de deixar para os familiares os relatos de sua infância e as diferenças entre a vida simples que ela teve enquanto garota comparada a das netas. Após a publicação, o livro tornou-se um importante registro social histórico de uma época.

Referência - Elizabeth Bishop, considerada uma das mais importantes poetisas do século XX , ficou tão envolvida pela obra que a traduziu para a língua inglesa, sendo publicada em 1957, e o grande Guimarães Rosa disse certa vez que “Minha vida de menina” era um verdadeiro relato da infância.

Resenha sobre o livro Minha vida de menina - Helena Morley
Alice (Helena Morley) e a capa da primeira publicação - Imagem: Reprodução

Fique por dentro:
O livro também foi adaptado para as telas do cinema em 2003 e ganhou vários prêmios, entre eles, seis Kikitos no Festival de Gramado. O filme foi dirigido por Helena Solberg e a atriz Ludmila Dayer interpretou a personagem principal.

Na Saraiva ele está disponível por R$17,90. Preço e disponibilidade sujeitos à alteração.

Em 2017, “Minha vida de menina” entrou na lista de livros exigidos pela Fuvest, fundação que organiza o exame para ingresso na USP.

Trecho do livro:
21 de janeiro
"Quando eu tenho inveja da sorte dos outros, mamãe e vovó dizem: "Deus sabe a quem dá sorte". Na Boa Vista agora é que eu acabei de crer. Já disse a vovó que ela quase nunca erra, quando fala as coisas. Nós todos, os meninos e meninas da Boa Vista, depois que acabamos de jantar e que meu pai e tio Joãozinho despacham os trabalhadores, a coisa que mais gostamos é ficar descalços, com o pé no molhado, subindo e descendo o desbarranque da lavra, procurando diamantinhos e folhetas de ouro, pois tudo meu tio compra. Diamante é raro achar, mas folhetas de ouro a gente encontra sempre...”

Já escreveu uma lista de gratidão?


Escrever uma lista de agradecimentos e gratidão

Quando um novo ano se inicia, é muito comum que as pessoas façam uma lista de desejos. Cada um tem a sua com anseios bem diferentes! Há pessoas que desejam a casa própria e outras a cura de uma doença. Há quem peça um novo emprego, há quem deseje ingressar na faculdade. Mas, se lembramos sempre de pedir, é essencial que também saibamos agradecer! Afinal, ao lado da sua lista de sonhos para 2018, você fez a sua lista de agradecimentos por 2017?

Talvez, o ano que passou não tenha sido bacana na totalidade, mas responda: algo bom aconteceu em algum dos 365 dias que se foram? Aquele dia que você e seu amigo riram até a barriga doer de um vídeo da internet, quando você recebeu flores no seu aniversário, o bolo de laranja que sua mãe fez assim de surpresa, a compra do primeiro carro, o passeio no final de semana para uma cidadezinha do interior, o filho pequeno que fez um comentário inocente e divertido ou aquele domingo em que você dormiu até tarde como não havia feito em anos.

Escrever uma lista de gratidão não só pelo ano que passou, mas fazer disso um hábito – quem sabe diário ou mensal?! – é uma prática defendida por profissionais focados em desenvolvimento humano. Sentir-se agradecido traz sensação de bem-estar, satisfação e nos impulsiona por novos caminhos.

De vez em quando substitua os selfies por paisagens que te cercam já que todo lugar esconde um detalhe interessante!  Transfira seu olhar para um lugar novo, silencie pensamentos negativos ou enxergue um outro lado da questão.


Se a caminhada pela trilha da vida às vezes é sinuosa e cheia de pedregulhos, vale a pena tirar os olhos do chão e apreciar a flor miúda que cresce ao lado ou o céu que enfeita qualquer local sempre nos oferecendo uma visão do natural. 

Agradeça a oportunidade da experiência!



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Filme Extraordinário e sua mensagem de gentileza

Filme Extraordinário completo

Seja gentil com o próximo, pois nunca sabemos as dificuldades pelas quais ele está passando. Esse é o recado que o filme “Extraordinário”, exibido atualmente nas salas de cinema do Brasil, tem a transmitir.

O longa, dirigido por Stephen Chbosky, tem como elenco principal os experientes Julia Roberts e Owen Wilson, que interpretam os pais de Auggie Pullman. Personagem vivido pelo ator Jacob Tremblay que faz o papel de um garotinho portador da síndrome de Treacher Collins, um distúrbio que provoca alterações faciais.

Educado em casa pela mãe até os 10 anos, Auggie agora se vê, aos 11 anos, desafiado a ir para uma escola regular e a conviver com outras crianças. Mudança que lhe causa receio já que por toda a vida, o menino sofreu com os olhares de espanto e curiosidade que as outras pessoas tinham quando lhe viam.

Quando vi as primeiras notícias sobre o filme logo fiquei curiosa! Gosto dos longas baseados nas questões humanas, nas relações sociais e nas dificuldades da convivência. Por isso, não me decepcionei! O enredo conta não somente a história de Auggie, mas fala das renúncias da mãe que cuida de um filho que demanda mais atenção que outro, da irmã mais velha que se sente esquecida pelos pais sempre atentos ao filho que passou por 27 cirurgias antes de completar apenas 10 anos, dos amigos que convivem com a criança e demonstram dificuldades no relacionamento com ele, inclusive, abordando questões como o bullying. Mas, de todas as histórias contadas, a mais bonita é sobre as descobertas que todos podemos fazer quando enxergamos além das diferenças da aparência.

Crítica do Filme Extraordinário
Crédito das Imagens: Divulgação
Delicado, o filme também apresenta algumas cenas leves e humoradas bem comuns a toda criança, mas claro, também nos emociona em muitos momentos. Algumas cenas são clichês, mas a interpretação de Julia Roberts é precisa e comovente!

Assista abaixo o trailer do filme Extraordinário:  


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Série de aventura e romance no Netflix: Outlander

Série de aventura e romance no Netflix


Outlander é uma daquelas séries do Netflix que você começa assistir e não quer mais parar! Baseada nos livros da norte-americana Diana Galbadon, o seriado conta a história da enfermeira Claire Randall (Caitriona Balfe), que prestou serviços durante a Segunda Guerra Mundial, e que ao final do conflito, volta a conviver com o marido Frank (Tobias Menzies). Para celebrar o reencontro, eles viajam pela Escócia. Em meio ao cenário rural, eles conhecem um misterioso círculo de pedras que acaba levando Claire para uma viagem ao passado, no ano de 1743. 

A partir daí, o espectador sofrerá com a protagonista - uma mulher cheia de personalidade - que se verá dividida entre dois amores: o marido do século 20, e o guerreiro escocês, Jamie Fraser (Sam Heughan), no século 18. Situação que a levará viver cenas de aventura, luta, suspense, e claro, romance! É importante também dizer que a série é recomendada para maiores de 18 anos devido às cenas sensuais. E, na minha opinião, alguns capítulos são bem carregados nas cenas de violência. 

Porém, além do enredo épico, o seriado aborda momentos históricos da Escócia, como o Levante Jacobita, a Batalha de Culloden, e fala da cultura dos clãs escoceses. O que faz a série valer a pena pelo contexto histórico, pela bela fotografia e para quem curte romances envolvidos em muita aventura!

Assista abaixo o trailer da série Outlander:



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Fazer aniversário



Tenho certeza, (CERTEZA!) que qualquer dia desses alguém vem bater na minha porta, vestido com um terno sóbrio e gravata borboleta dourada, e com a cara mais deslavada do mundo, mas ainda assim, com um ar solene dirá :

_Desculpe, Cristiane! Foi tudo um engano. Verificamos aqui e chegamos a conclusão que os anos estavam sendo contados de forma errada. De dezembro de 1981 até aqui não são 36 anos. Imagine! Quase 40! Não, senhora! Aliás, não senhorita! Sabe aquela sua impressão que ontem mesmo você vestia seu uniforme escolar azul e branco? Realmente. Você tem razão! Foi nesta última segunda-feira. O seu primeiro dia na faculdade? Horas atrás. Aquelas tardes em que você e seus  amigos estudavam debaixo dos pés de mexerica? Foi há poucos segundos. O tempo enlouqueceu! Fique calma! Essas ruguinhas servem apenas para lembrar que tudo passa no bater das asas de uma borboleta. Calendários gregorianos não merecem nosso respeito.

Então eu, uma senhora não senhora de mim, gritarei em gargalhadas:
_Eu sabia!!!!

Virarei as costas para o mensageiro da cronologia e direi para o meu corpo:
_Se aquiete! Somos - ainda - duas crianças bobas! 

Dica de livro: Strange fruit - Billie Holiday e a biografia de uma canção


Dica de livro Billie Holiday e a biografia de uma canção Strange fruit

Ser considerada a primeira música de protesto contra o linchamento de negros nos Estados Unidos, na década de 1930, é por si só muito para se dizer sobre uma música. Mas, saber que ela ganhou notoriedade na voz de Billie Holiday, uma mulher negra, considerada uma das maiores cantoras de jazz de todos os tempos, é falar com deferência. Essa é – basicamente - a história do livro Strange fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção, escrito pelo jornalista americano David Margolick.

Encontrei a obra, por acaso, em uma feira de doação de livros. O nome de Billie, gravado em uma charmosa capa preta de material sintético, logo me chamou a atenção! Levei para a casa, e após ler a biografia de Martin Luther King, embarquei mais uma vez – sem planejar - na história do racismo dos Estados Unidos.

A letra foi escrita por um professor judeu chamado Abel Meeropol, que abalado após ver em um jornal uma fotografia de dois homens negros enforcados em uma árvore, vítimas de racismo, fez um poema metafórico, triste e necessário:

 “Árvores do Sul dão uma fruta estranha/ Folha ou raiz em sangue se banha/ Corpo negro balançando, lento/ Fruta pendendo de um galho ao vento/
Cena pastoril do Sul celebrado/ A boca torta e o olho inchado/ Cheiro de magnólia chega e passa/ De repente o odor de carne em brasa/
Eis uma fruta para que o vento sugue,/ Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue,/ Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta,/ Eis uma estranha e amarga fruta”

No livro, o escritor David Margolick  relata que a música era a última que Billie cantava em seus shows, pois sempre gerava um incômodo na plateia. Não por acaso, quando a lemos traduzida, e mesmo a ouvimos na voz de Billie (veja abaixo), entendemos todo o desconforto e reflexão que ela provocava.

Vale a leitura para refletir sobre a questão do racismo em um país como os EUA, para conhecer um pouco mais sobre Billie Holiday e, por fim, para perceber como a música pode ser muito mais que um instrumento de entretenimento.

Ouça abaixo Billie Holiday cantando Strange Fruit:

Augusto Malta e o Rio de Janeiro antigo


Biografia de Augusto Malta

Os registros feitos do Rio de Janeiro no início do século 20 pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta são uma verdadeira viagem pelo túnel do tempo. Para quem conhece a capital fluminense, ou pelo menos, os pontos turísticos mais famosos, visualizar cada imagem feita por Malta traz um saudosismo de um tempo não vivido.



Nascido em 14 de maio de 1864 na cidade de Mata Grande no estado de Alagoas, Augusto Malta mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1888, aos 24 anos. Na cidade, o rapaz trabalhou inicialmente no comércio de tecidos, mas foi no interesse pela fotografia que estabeleceu sua carreira. Primeiro como amador e depois como fotógrafo oficial nomeado em 1903 pela Intendência do Distrito Federal do prefeito Pereira Passos. Cargo exercido até 1936, e que após a aposentadoria, também se tornou seu passatempo. Malta continuou a fazer registros, entre eles, dos foliões em carnavais guiados por antigos carros Ford, das personalidades da época e do surgimento das primeiras favelas.



Suas fotografias em preto e branco são uma verdadeira viagem ao passado, onde ainda vivem homens com seus inseparáveis chapéus, meninos de calças curtas e descalços, mulheres de vestidos longos e cabelos sempre presos, o bondinho do bairro Estácio, os cavalos pastando em um cenário ainda rural aos pés da Igreja da Penha, o Morro do Pavãozinho ainda desabitado, a Lagoa Rodrigo de Freitas despovoada, as orlas das praias quase desertas, o Hotel Copacabana Palace cercado por terrenos vazios e construções baixas e, até mesmo, a imagem de um dirigível sobrevoando o bairro da Glória que soa quase como uma pintura de Salvador Dalí. 



Cenas que mostram um Rio em processo de modernização e figuram como memória fotográfica de valor incontestável ao lado das obras do francês Jean-Baptiste Debret que pintou imagens da rotina de um Brasil ainda colônia no século XIX.

Onde conhecer – Parte do acervo das imagens de Augusto Malta, estimado em 80 mil fotografias, está atualmente no Museu da Imagem e do Som (MIS) no Rio. No espaço estão 25 mil fotografias, 20 álbuns fotográficos com imagens selecionadas pelo próprio Augusto Malta, 1.700 negativos de vidro e 115 negativos panorâmicos. A programação do espaço e como chegar ao local podem ser consultadas no site do Museu www.mis.rj.gov.br.

No Instagram - Mas, além dos registros passados, outro trabalho que também merece destaque é o do fotógrafo Marcello Cavalcanti que registrou como estão atualmente os mesmos lugares fotografados por Malta. Cavalcanti criou o projeto Augusto Malta Revival por meio de um trabalho de manipulação digital onde uniu passado e presente em imagens que fazem uma interessante releitura do passar de um século. Algumas destas imagens podem ser acessadas no link www.instagram.com/augustomaltarevival